sábado, 20 de abril de 2013

Eu, eu mesma e mais alguém.


Meu quarto é realmente sempre uma bagunça, eu juro que até tento manter a ordem, mas depois vai chegando um ponto que eu desisto mesmo, às vezes minha mãe arruma pra mim, mais às vezes ainda, para não dizer raramente, eu faço uma mega arrumação e coloco tudo no lugar, não será hoje, não foi ontem. São 6:50 da manhã, acho que meu rosto ainda está um pouco inchado, meu irmão dormiu nesse colchão no chão, ele mora com meu pai, mas tinha espaço no meu quarto, ele é pequeno, mas minha cama é de solteira.

Sim, minha cama é de solteira, mas eu já tive uma cama linda e gostosa de casal e ela era de molas... mas, um dia, resolvi trocar meu quarto inteiro, redesenhá-lo e nessa nova organização, eu quis uma cama para dormir sozinha, dei a grande para a mamis e assumi minha nova forma.

Então agora eu era uma solteira com cama de solteira e isso me tornou um tanto quanto mais solteira. Mas essa vida sem ninguém pra chamar de meu me mostrou um mundo que eu não conhecia e aos poucos me reorganizou também. Existem traços do solteiro que se deve apreender:

O solteiro é livre, o que ele fará do dia e dos planos dele são projetos dele, o solteiro sorri sempre e para todos, não sente ciúmes, ou no mínimo precisa controlá-lo até o ponto que aquilo não transpareça ciúmes e daí se acostumar tanto que aquilo nem exista mais. A solteira não pode se deixar levar por picuinhas, tem sempre um kit de maquiagem completo na bolsa, está sempre bem arrumada e sempre procura se enturmar, porém se estiver mal arrumada problema é dela, ninguém para reclamar nada... Solteiros são mais espontâneos, não tem ninguém controlando sua personalidade, suas vontades e estão sempre prontos pra próxima. O solteiro tem amigos, muitos, que, sim, somem em momentos importantes, mas quando aparecem trazem consigo muita alegria, muitas histórias... o solteiro tem histórias.

Mas eu acho que de tudo que a vida solteira ganha é a de ensinar-nos a convivermos com a nossa presença. Nem sempre tem um amigo, um evento, disposição ou dinheiro, nessa hora é que a gente surta. O solteiro não gosta de ficar em casa pensando tudo que ele poderia viver e pior ainda, tudo que ele viveu em tal época ou poderia estar vivendo se Fulano não tivesse sei lá. Nesse momento é que o solteiro mais ganha, nesse momento ele balanceia e percebe tudo que aprendeu com o tempo.

E aí a gente aprende, talvez por causa de uma amiga que apareceu num bar e nos falou algo que só iremos refletir depois, que nossa vida é como se fosse nosso corpo, mas com um buraco no meio. Não adianta tentar entupi-lo seja lá com o que for, você até pode tentar tampá-lo, escondê-lo de você mesmo com namoros, religião, livros, amigos, eventos, trabalho, família, mas aconteça o que acontecer, o buraco está lá, entupido porém buraco. Então você é obrigado a se dar conta de sua presença e a conviver com ela.

Por mais que no início pareça ruim fazer as coisas sozinha, com o tempo se torna opção, eu adoro ver o pôr do sol com meus amigos, mas eu também adoro fazer isso só. E é claro que tem gente que já nasceu sabendo tudo isso, sem dificuldade e faz isso com alguém, eu sou daquelas pessoas que precisa que a vida mostre. E é claro que todo mundo quer alguém pra chamar de seu, mas isso não é fundamental, essencial é descobrir a pessoa maravilhosa que podemos ser para nós mesmos, antes de sermos para qualquer pessoa. Terminar relacionamentos é dos fatos mais abençoados, eles nos dão a oportunidade do aprendizado e do amadurecimento, queiramos nós, percebermos isto. 

Talvez nossa grande missão neste mundo seja aprendermos a conviver com a nossa presença, tem gente que não se aguenta, precisa do outro sempre, não se segura sozinho por dois meses e deixa de absorver a vida encantadora que vive em si. Tem gente que vê as pessoas dizendo que vivem com muito amor alheio e quer demais que essa magia misteriosa aconteça pra ela também, também quer posts no facebook, fotos apaixonadas, status atualizados, sexo com amor, eu queria muito comer um sucrilhos agora cedo.

Nada melhor que conhecer uma pessoa linda, inteligente, com os mesmos gostos musicais ou de leitura que os nossos e que por um milagre da vida está no mesmo tempo que a gente, essa pessoa linda pode ser eu mesma, e pela primeira vez na minha existência eu posso me dar conta dos meus detalhes, da minha personalidade, das minhas vontades e se depois aparecer mais alguém que também queira admirar tudo que eu pude perceber aqui e que também seja de se admirar, legal, vamos lá, todos juntos, eu, eu mesma e mais alguém.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Três fatos meus sobre paixão.


Não é que nunca me apaixono. É que lá no fundo, guardo o segredo irrevelável da paixão que sinto por qualquer sujeito que me aparece, me arrebata e eu, colada que me coloco, não conto, não faço, não progrido, porque não penso que compense alí. O princípio da vacina, te injetam um tanto de doença que seu corpo consegue reconhecer e não que você nunca padecerá desse mal, é que ele vive em pequenas quantidades dentro de você. Quero o irremediável.

Sou uma pessoa apaixonada, apaixono-me cotidianamente pela imagem refletida de mim no outro e, assim, vou confundindo-me pelos meus dias, por minha causa.

Acho que em grandes espaços temporais, sempre estive envolvida num grande conflito interno.

domingo, 14 de abril de 2013

A qualidade das pessoas encantadoras.



A qualidade das pessoas encantadoras
ou
A qualidade de ser encantador

ou
Sobre os seres que encantam

Ela sabe. Finge não perceber que está sendo analisada, de alguma forma se pertencem, levanta a vista, fixa o olhar, quebra a cabeça para o lado e sorri, como se dissesse: "Oi, meu bem, eu sei que você está me observando". Se olham por alguns poucos segundos gostosos, até que se desviem novamente. A qualidade das pessoas encantadoras.

Sempre preferi as pessoas encantadoras às bonitas. As pessoas encantadoras falam com o corpo, movimentam-se na exata sincronia de suas vozes e assuntos, tons e olhares, dominam o ritmo.

Elas circulam por aí fazendo uso, sem intervenção de leis, dos poderes da magia, vivem nos nossos círculos sociais e não se enganem, são nossos amigos, familiares, namoros... mas não é todo amigo, todo familiar, todo namoro. Eu, por exemplo, tenho muitos desconhecidos encantadores, muitos amigos e familiares encantadores, professores, mas tive apenas um namorado que me arrastou pelo encantamento. A pessoa mais encantadora que conheci foi uma amiga. Encantamento é a propriedade do ser, não do gênero.

As pessoas encantadoras tem corpo e parecem conhecer cada ponto de seus membros. Elas tem mãos que giram no ar e ombros que caem de acordo com seus interesses. Mais do que seres belos, seres charmosos.

Ser encantador é praticamente um ofício bruxo, um talento: o dom de encantar, de deturpar a visão além dos padrões físicos, é a beleza abstrata.

As pessoas encantadoras balançam a cabeça enquanto falam e tenha sorte que não mexam em seus cabelos. Elas olham profundamente em nossos olhos, mas escapam de nosso olhar antes que as enxerguemos. Existe qualquer cinismo meigo em suas bocas.

Não é que estes seres metafísicos, manipuladores de sensações, façam (sempre) de propósito, mas eles tem consciência de seu domínio e abusam dele em nós, pobres mortais enfeitiçados.

Qualquer sorriso completamente particular, quaisquer olhos semi-cerrados, algum cheiro alcoólico no perfume, alguma essência embriagante.

A pessoa encantadora é doce, é ternura ativa, nós dizemos: "cativantes", ela não diz tudo. Sempre falam muito não importa sobre que assunto, é envolvente. Mas sabemos, falta alguma parte colocada lá naquela caixinha de segredos informais guardados a trinta chaves que são suas mentes. Nós achamos que elas nos querem, elas...? Elas são ambíguas.

Tenha Deus a bondade de nos apresentar pessoas encantadoras e piedade de nossos corações vulneráveis aos efeitos delas.

terça-feira, 9 de abril de 2013

As coisas que aprendi com o tempo - Minhas não-rugas.


O tempo me ensinou o que os livros me contaram, mas com a propriedade da aplicação.

O tempo me ensinou que a vivência ultrapassa a teoria.

O tempo me ensinou a não perder tempo.

O tempo me ensinou que envelhecer não é perder tempo e me ensinou também que a vida sem lei, sim, é perda de tempo,  que as regras tem de ser seguidas...

O tempo me explicou que é verdade a máxima de que quando ficamos muito fora, não estamos querendo mesmo olhar pra dentro.

O tempo me comprovou que Freud explica.

O tempo passou e me mostrou que quanto mais calma estive, mais construção trabalhei.

O tempo me ensinou a acrescentar na vida das pessoas e, mais tarde, a acrescentar primeiro na minha.

O tempo me ensinou que acrescentar necessita equilíbrio. Também me ensinou que há muita gente desequilibrada por aí procurando equilíbrio alheio pra se balancear. Como não se desequilibrar então?

O tempo me ensinou que equilíbrio é um exercício contínuo.

O tempo me comprovou na pele que o tempo passa, que as pessoas passam, que a vida passa... o tempo obrigou-me a entender que o tempo é um ciclo mutável e que a única coisa que não muda com ele é que ele sempre muda.

O tempo ensinou-me a ensinar. Ensinou-me que crianças gostam de ser tratadas com a seriedade dos adultos e que adultos gostam de ser tratados com a mesma compreensão que concedemos às crianças.

O tempo me ensinou que a vida é uma passagem, que tudo passa e que isso também pode ser uma dádiva.

O tempo ensinou-me a apostar nas pessoas, a acreditar no que ainda não existe, no que nunca foi visto, a quebrar as regras, a relevar os erros e a esquecer o passado. Ensinou-me a registrar os fatos, mas a não guardar rancor.

O tempo ensinou-me que é verdade que as pessoas são reflexo de nossa mente.

O tempo me ajudou a pensar sozinha.

O tempo me ensinou a procurar opiniões diversas.

O tempo ensinou-me a ponderar as ideias e a escolher um caminho livre de influências.

O tempo ensinou-me a não roubar no truco e a não acreditar em quem pensa no proveito que tira das situações antes de agir.

O tempo me ensinou a acreditar na bondade do desconhecido, na sorte do destino, na seriedade do planejamento.

O tempo me secou um pouquinho e ao mesmo tempo pediu que mantivesse a crença na docilidade.

O tempo me ensinou que sempre há tempo.

O tempo me ensinou a queimar as pontes que atravessei.

O tempo me ensinou a importância do amor.

O tempo me ensinou a abençoar todo o próximo e a ter pena de quem apoia o desastre ao invés de aconselhar: "Resolva".

O tempo ensinou-me a rezar. Ensinou-me a não chorar tanto e a sorrir mais.

O tempo ensinou-me a conviver com a decepção e a não deixar de acreditar.

O tempo me ensinou a diferença das histórias que contam e a dos fatos que acontecem. O tempo ensinou-me a não dar tanta credibilidade às narrativas em 1ª pessoa.

O tempo ensinou-me a ser ambígua. Muito creio e muito desconfio.

O tempo me ensinou a meditar nas horas de turbulência e calmaria. O tempo me ensinou que harmonia é mais importante que alegria.

O tempo ensinou-me que quem muito se ausenta continua fazendo falta, a gente é que se acostuma com a falta.

O tempo me ensinou que eu gosto de batom vermelho, mas que eu fico melhor de rosa.

O tempo me ensinou que ninguém morre por causas naturais de amor. O tempo me ensinou que amor faz viver e que a busca do mundo é a de reconhecê-lo nas situações, nas matérias, nas pessoas... e se esquecem que amor é o reconhecimento de si na imagem do próximo. Amor é se enxergar como é e se amar no espelho que é a alma de todo outro.

O tempo vem me ensinando a conviver comigo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Dicas da Vovó Naná.


Receita para uma boa mousse de maracujá:

Suco de maracujá (Bater e coar 4 frutas, pra ficar bom, nada de Manguari)
2 latas de leite condensado
1 lata de creme de leite sem soro

Modo de preparo: Bata tudo no liquidificador, despeje numa vasilha qualquer, gele.

Receita para um vida simples: Não viva. Viver é complexo mesmo, ninguém disse que seria fácil, mas pode, sim, ser mais doce, a permissão é sua. Já diz o samba: "É melhor ser alegre que ser triste".

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Olhos de cigana oblíqua, mas não dissimulada.


Acho que me apaixonei. Acho que de repente me dei conta que estou perdidamente desconcertada com qualquer pessoa que nasceu em mim. E ela, que sempre esteve lá, que mal sabia eu, sempre se escondeu em mim, resolveu aparecer primeiro em alguns traços... sim, é assim que esses seres encantadores chegam. Enfeitiçando aos poucos. E ele me convenceu de que eu deveria deixá-lo sair, que eu deveria cortar o cabelo, navegar por lugares nunca antes navegados, fazer mais duas tatuagens... e eu, que finjo fazer poesia, amei o poema que queria nascer em mim. Li meu esboço de mim. E nem é que tenha gostado sempre e de cara, é que a força das situações e o fraco da minha vontade me impeliram a ser eu, e fui sendo, gostei de mim como se gosta de uma pinta no rosto, mais por obrigação que por charme. Gostei porque minha opção era gostar. Existi porque os planos que tracei não foram suficientes. Amei porque nasci para amar. Deixei porque era melhor deixar.

Na vida não dá mesmo para sempre acertar. Tem gente que não é qualquer personagem. Eu acho que na minha história eu não sou protagonista. Sou uma daquelas coadjuvantes humanizadas, cheias de ambiguidades, que roubam a cena, mas não são personagens centrais. Ou então minha narrativa não é novela, é só um conto de pessoas que são pessoas.

Hoje eu tento enxergar nas linhas que não existem no meu rosto, os traços do meu passado. Tento encontrar nas rugas que não me marcaram, o ser que viveu aqui e que foi embora há tanto tempo. Sempre fui eu, sempre estive aqui e somente agora sei que sempre soube. É complicado descobrir-se profundo. Mas é  necessário arriscar conviver com o prazer e a culpa de ser você, para ser você. 

Eu poderia só escrever: "Sou ora mocinha, ora vilã". Não sou. Eu sou isso aqui porque foi o melhor caminho que eu pude pegar até o momento, existe um conceito budista (sempre há um conceito budista que não sabemos realmente se são, mas que assumimos por catarse) de que nunca poderíamos tomar uma decisão melhor do que a que tomamos, porque se não a teríamos tomado. Se neste momento esta sou eu, com a carga de vida que tenho e que tento sempre corrigir, é porque esta foi a única opção que tive ao escolher. Boa ou má escolha, a carga é minha e gozo arcá-la.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Nossos baobás


Esta manhã eu não acordei leve. As coisas ficaram meio pesadas. Tem um pouco de bagunça no meu quarto. Ainda tem um pouco que sobrou de ontem, quando eu tentei arrumar tudo e não deu tempo. Não deu tempo... eu quis ver a novela... eu quis desenhar... eu tinha que desenhar uns rabiscos e eu precisei corrigir mais umas provas. Aí sobrou uma desordem escondida no guarda-roupas, uns textos mal colocados nas prateleiras e uns livros fora da decoração. Mas como hoje as coisas acordaram pesadas e eu gosto de viver levemente, então eu resolvi que vou fazer daquelas limpezas conscienciosas e colocar as coisas nos seus devidos lugares... terminar os excessos.

Essa é a história da menina que muda. E gente!? Ela muda todo dia. É insuportável. Ela não acha fácil e ela não gosta disso. Mas acontece, fazer o quê?! Tem dia que ela acorda assim, as vezes pelo que aconteceu na noite passada e ela simplesmente levantou e mudou de novo. É um saco. Ninguém aguenta mudar tanto assim. Mas ela também sabe que nem é tão drástica. É mais dramática. E é uma farsa também. Finge racional, mas chora com o jornal. Chora com a novela. Molha os cílios com simples hipóteses, derrama água de rir, de emocionar, de ver o sol... ou a lua também, é que ela é (como diz Carpinejar) macia.

E ela não quer sofrer. Ela odeia sofrer. Contudo, ela sabe que o sofrimento é uma fórmula matemática. Que ela já sofreu umas vezes com brigadeiro, cama e livros e que vai sofrer mais algumas tantas vezes. Mas a corrida dela para que não se debulhe em lágrimas ruins lhe tira o fôlego às vezes, aí ela precisa chorar; e ouvir músicas nostálgicas também.

"Saudade de quando meu maior problema era resolver a tabuada", ela leu no Facebook, pois eu vou confessar: Eu tinha pavor de tabuada, eu não sabia resolver ela, eu não tinha ela de cor, meu pai me trancava no quarto pra memorizá-la e eu quase me mijava de medo na prova. Eu não tenho saudade desse tempo. Eu não sinto falta desse tipo de problema. Inclusive porque, sim, meus conflitos hoje são muito mais complexos, mas eu consigo resolvê-los com muito mais desenvoltura e com muito menos taquicardia.

Às vezes a gente vai ficando porque não está fazendo nada e não percebe que podia estar indo melhor com esse tempo vago. Às vezes a gente não percebe que está perdendo tempo. Às vezes a gente percebe. 

É necessário se dar conta da responsabilidade que temos conosco. Não é amoroso deixar que aconteçam por você. Quem se ama mantém a casa em ordem, vive o agora, mas programa as limpezas diárias. Não é justo com a gente fazer procurar o essencial no meio do lixo, cada anel errado, lápis trocado, borracha sumida, é mais em nós um segundo a menos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Velhos novos ventos



Como é difícil ser unilateral. Como é complicado manter apenas uma opinião. Ser uma coisa só. Classificar cada um dos sentimentos mais abstratos que me passam e recortam, cortam em pedacinhos cada ponto da minha massa firme, invólucro material de toda minha essência que é espiritual. Quando tento classificar meus sentimentos, racionalizar minhas vontades, entender o que eu quero e o que me afeta, a conclusão é sempre a mesma: "Relaxa, Lili, não tem jeito".

Sim, a voz que fala comigo me chama de Lili. A voz boa, claro. Aquela que gosta de mim. Que me orienta bem, que canta pra mim. E ela sempre diz: "Lili, vai dar tudo certo"... "Lili, não é assim"... "Lili, não tenta"... "Não é assim"... "É muita simploriedade explicar a mente. A gente nasceu pra sentir, não pra classificar reações"... "Vai que é desse jeito". O vínculo da mediunidade e da vontade real. Aquela deusinha interior que em parte sou eu, em parte é outro e que voa dentro de mim, plana no vento, dizendo: "Vamos por partes".

Esses dias eu tinha um conjunto de cabelos que chegava na minha cintura e esse conjunto alimentava cada ponta de energia dupla, desbotada e morta que tentava viver seca em mim. Sugava toda brisa insistente em arrepiar a nuca minha. Ai eu cortei esse mal não pela raiz, mas na sua parte em decomposição. E, meu amor, como é bom cortar o excesso. Sem peso a me puxar as ideias, tudo aquilo que joguei fora abriu espaço. Eu nasci mesmo para cabelos pequenos. Eu sou mesmo toda pequena, é que pequeno dá pra trabalhar melhor, mais bonitinho e com mais detalhes.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Poeticamente farsante


Esse meu poder de fingir que racionalizo
A força que estabelece uma linha tênue entre o que sinto e faço e o que concluo
O que eu quero e o que meu corpo pede
A luta que arde eterna entre o que sou e o que preciso
O estigma de todos os movimentos nos quais me desenrolo
De tudo aquilo que provoco
E do que acontece porque as coisas acontecem em cadeia
O brilho opaco dos fatos encarnados.

Eu gosto dessa minha forma leve
Gosto de me pertencer
De não ser cárcere alheio
E de ter tudo, quando conto pro mundo que há qualquer necessidade.

O gosto amargo do tempo seco escorreu mais uma vez pela boca minha
O calor porém é sempre úmido e doce

A hora da estrela é a morte

Sei um modo de morrer diariamente

A forma como serpenteio.

Há qualquer coisa de ambíguo neste conteúdo corpóreo que aprisiona todo poder mental que vibra em meus olhos e no respiro de minha pele. E eu que não sei de nada, minto sinto que faço poesia.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Poesia da coletividade



Olha para o lado e enxerga a poesia dos dias que passam.
Repara o espelho e percebe os traços que se modificam.
Avista o horizonte e observa os prédios que surgem.
Sorri com os olhos.


Seus anos
Sua pele
Seus caminhos
Seu eco.

E nas suas estradas sempre por um curto tempo as mesmas canções
E nos seus pensamentos sempre por um curto tempo os mesmos conflitos
E na sua vida sempre por um curto tempo tudo passa vagarosamente ligeiro

Respira poesia, vive em prosa e atua de ser-humano. 
A ampulheta coletiva de todos nós.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Meus estágios.


Quero para este mundo um universo tão encantador quanto o que cresce em mim. Não este universo que aparento. Aquele universo que escondo por dentro, que já veio escondido. Aquele mundo paralelo que contemplo quando fecho os olhos. Aquele que tampo a visão para enxergar com claridade, o olhar da alma. Aquele que prova que sentir é espiritual. Aquele que observa que tanto beleza quanto intelecto são aparência. Aquele que doa o pão. Aquele que nada doa, porque "A mim nada pertence". Aquele que vê a todos como irmão. Aquele que passeia na rua e observa apenas o familiar, porque somos todos fraternos.

Desejo a ti a poesia dos belos dias, a calma do domingo, a ansiedade do sábado, o conforto da sexta-feira à noite. Desejo a você que não me conhece, que me conheça. E desejo a nós que nos conhecemos, que conheçamos mais o alheio, que entendamos o outro.

"Tenho em mim todos os sonhos do mundo". Tenho para mim, para nós, para você, todos os grandiosos ideais que nos pedem nossos mestres... Tenho a fé dos novos dias, a força renovada, tenho a alegria das manhãs de sol, o mais manhã possível, daquelas que nem sempre vemos, porque nem sempre acordamos, peço para nós o cansaço do trabalho bem feito, a realização de ser eficiente, o agito da vida coletiva, os planos para o futuro, a rapidez do presente.

Te quero dias de sono, dias de ócio, dias de melancolia lírica, manhãs nubladas e preguiçosas, a paz da individualidade, a nostalgia do passado, te quero o cheiro que lembra a infância, o sabor que recorda a um tempo, as percepções táteis, te quero as sensações emotivas... O encanto que há na dualidade, te quero o feitiço da verdade que habita os contrários.

E porque não tenho nada, porque nada que tenho, possuo... porque devo ser útil aquilo que digo "Me pertence"... porque ao contabilizar estrelas, o ápice é guardar os números engavetados, lhe desejo, meu irmão, uma vida de amadurecimento. Uma vida livre e encantadora para cada meu irmão.




segunda-feira, 11 de junho de 2012

Tinha uma nota no meio do caminho.


"E ai, Lili? Você tem namorado? Não. Noossa! Como assim? Mas faz pouco tempo que você não namora, né? Não. Mas você quer arrumar um namorado, claro!? Não. Como assim? Nossa, isso é mágoa, viu?! Você gosta do seu ex ainda? Não, não e não. Mas sua vida tá boa? Ahhh! Isso sim. Está ótima, está linda". (Sorriso de educação).
                                                             
Incrível como é uma obrigação ter um namoro. Incrível como a ordem dos fatores se deturpou, gostar para namorar pra quê? O importante é ter um pedação de carne pra dormir de conchinha e levar nos eventos sociais e olhe lá, se pá, você ainda pode vir a amá-lo. As pessoas não entendem mais que se você está solteira, não significa que esteja disponível e não entendem que você possa estar querendo simplesmente viver os seus projetos e que na sua vida namorar não é um projeto.

Será mesmo que essa percepção de que namoro não se procura é de tão difícil discernimento? Será que só eu penso que a formulinha é: olha, eu vou vivendo minha vida aqui, legal, vou fazendo minhas amizades, vou trabalhando, vou sei lá, fazer uma pós, um mestrado e um doutorado depois, vou colocar como objetivo principal viajar bastante... hum... mudar de cidade... ler meus livros, ver meus filmes, meditar na minha igreja, comprar minhas roupas... e se por um acaso, a-ca-so, eu encontrar nessa trajetória alguém que eu goste, alguém que se afine comigo e estivermos no mesmo tempo e espaço, ai sim, meu bem, eu vou querer alguém pra eu chamar de bem. Se não, não e que ótimo.

É engraçado. Encontrar algo que não estou procurando. Você está saindo do shopping, indo pra casa e no meio do caminho, ao invés de uma pedra, uma nota de 20, o rumo é a sua humilde residência (gorfo musical), mas por destino, percepção, sorte sua, azar do outro, ela está lá, linda e amarela pra você. Mas ela não é sua, você sabe que ela não tem dono, você fica com ela, pega esse carma pra você, entra em felicidade total, conta pra todo mundo e vai ser livre e pelo amor de Deus, deixa ela ser também, vão se gastar. Cara, dinheiro encontrado na rua é a reificação do namoro.

No meu padrão social a regra não é formar, trabalhar, namorar, casar, ter filhos. A minha regra social é ser espontânea e juro, eu achava que as pessoas normais eram assim. "Nossa, mas uma menina tão bonita, trabalhadora, que gosta de viajar, com tantos planos, não pensa em namorar, ter filhos?","É, por isso mesmo, se você tem o que fazer, você não fica pensando idiotice".

Eu também desconfio de quem pula de relacionamento em relacionamento. Eu desconfio de quem volta com ex, eu desconfio de quem não se basta. E olhe, eu já fiz tudo isso e asseguro, eu não estava lá sendo a pessoa mais corajosa nem do andar do meu prédio nessas épocas, a gente tem medo das turbulências (e ai resolve assinar o atestado de covardia, retroceder sem nem conhecer o que nos espera), mas depois que elas passam, viver consigo se torna lindo e numa outra possibilidade, viver com o outro passa a ser pelo que ele é, não pelo que a gente precisa. Sempre existirão novas perspectivas, é preciso lembrar.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Área de serviço



Compensa a falta de personalidade com as etiquetas.
Etiqueta: Marca de. De roupa, de diploma, de peitos, de tanquinhos.

A minha mãe não carrega nenhuma delas e é a mulher mais interessante que já conheci. A minha mãe é a mulher que me deu a liberdade, inclusive, de aprender sozinha a respeitá-la e a orgulhar-me dela. É a mulher que teve sua primeira filha com 35 anos e seu último com 42. É a mulher que viveu em orfanato, que criou os irmãos, que perdeu a vida trabalhando na casa dos parentes, que se virou pra sair inteira sempre. É a mulher que tirou a mãe de uma colônia isolada de tratamento de leprosos quando todos queriam distância desse “tipo de pessoa” e ainda faz bolo prestígio, sopa quentinha e usa Herbalife.

Não tem, nunca teve, roupas de marca, não tem diploma, não é magra. Não necessita compensar, ela é o peso todo. Seus títulos carrega no espírito. Mamãe, eu quero uma foto é na praia.