Atrasada, a menina outro dia, pegou-me pelo braço, em sala de aula e contou que a madrasta lhe lavou a boca com sabão... "O que eu faço, professora?", "Mude seu comportamento, gatinha, é só da gente que a gente pode exigir mudanças"... "Dos outros, nós não podemos exigir nem o que nos é fácil", quanto mais o que também faríamos.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Uma flor ao clichê - Ninguém é de ninguém
O assunto é primeiramente de família e é familiar pra você também.
Outro dia deixei escapar, de brincadeira, em classe: "No final das contas, tudo é por reprodução, até objeto indireto! Você, Lucca, está aqui nesta sala, porque seu pai sabe que em 2030 você já tem três filhos pra sustentar!"... hoje, lendo o texto que coloco aqui, pensei: "Poxa, quanta ignorância, hein, professora!?"...
"O amor tudo suporta. A característica do amor é a perseverança. Aquela(e) que logo perde a paciência e abandona um propósito tem pouco amor. No amor verdadeiro não há ciúme. Tem-se ciúme quando há desejo de possuir exclusivamente para si, e isso não é o verdadeiro amor. O amor jamais procura exibir-se. O amor é sereno. Uma paixão ardente que logo se extingue não é amor verdadeiro. O amor é aquele que vivifica o próximo com serenidade e perseverança, sem jamais perder a esperança. O amor nunca é desespero. Desespera-se aquele que não está amando verdadeiramente o próximo. Quando o amor é profundo, jamais perde a esperança no próximo. O amor vê a perfeição da imagem verdadeira. O amor jamais amarra o próximo. O amor liberta, porém não abandona. Amar é orar pelo bem do próximo - (TANIGUCHI, Masaharu. A Verdade, v.9)".
Apesar de achar muito difícil amar desse modo, a gente não pode esquecer que talvez seja dessa forma mesmo. Tudo na vida é ao acaso do amor... "Refletindo sobre minha própria vida, não há dia mais triste do que aquele em que nada amei", continuou Taniguchi em outro trecho, de um outro livro. Por bem, nunca passei um dia sem amar e cada dia que passo, esse meu círculo de amores cresce e revive... bom e problemático é que é muito difícil querer apenas uma pessoa.
Depois de ouvir um poema tão bonito de Vinicius de Moraes, resolvi terminar esse tributo ao clichê com ele e não pensem que estou para mudar meu status, estou falando de muita coisa:
quarta-feira, 27 de julho de 2011
No meu tempo.
Os dias confortáveis me fazem lembrar que prefiro me decepcionar quantas vezes forem necessárias para não deixar de acreditar nas pessoas, nos fatos e nas esperanças... porém sou inquieta, os olhos sempre fixos, mas as pernas sempre dançando.
Já fui daquelas que largou para trás pessoas e lugares e quando retornou percebeu que ambos não existiam mais e penso que essa é das maiores decepções que existem... mas nos últimos momentos, percebo que meus lugares, minhas pessoas, meus instantes, por mais que preteridos, estiveram sempre ali, tão meus como sempre.
Durante quase 1 ano de tempo meu, a Vivi esteve longe e em meus sonhos ela sempre retornava outra, nós éramos outros, a chácara e Goiânia eram, para ela, outros. Mas quando ela pisou seus lindos pésinhos branquelos no Santa Genoveva, parecia que ela nem nunca tinha saído daqui e foram assim que as pessoas e os lugares, depois dela, passaram a aparecer em mim, como se nunca tivessem ido.
E é ai que o Saint-Exupéry sempre volta pra mim, não era ele que dizia que "aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós, deixam um pouco de si, levam um pouco de nós"?... isso só reforça a ideia de um certo professor importantíssimo em minha vida, escrita num livro de poemas que sempre leio: "a mão fechada se torna um ponto e aberta se torna infinito (...) a vida não está contida na escala do tempo, não está contida na escala da caducidade" (Masaharu Taniguchi)... e me abre a um paradoxo: tenho tempo para tudo, mas não posso demorar, estou levando as coisas tipo Jack Estripador, por partes... esperando e indo embora.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Zorra
Sou do Oeste. E é por isso que minha raposa olha pra lá.
Nem nunca pensei em raposas, até apreciava um tiquinho a Kyuubi... e tinha aquela de um desenho que eu gostava quando era criança, que a raposa, apesar de predadora, amava e cuidava de sua amiga cegonha. Teve também aquela do "Todos patinhos", que a Dassa me deu de aniversário e contava da caçadora laranja que acaba por formar uma família de patos, esperando sua presa crescer, tornou-se pai e descobriu que o tempo constrói o sentimento.
A raposa, na literatura, sempre é um ser faminto que é enganado pelo tempo e este mesmo tempo é o que a torna melhor, mais amável e mais sábia, aproprio-me dela. Até tem uns significados orientais, de ser astuto, feminino, feiticeiro... e mesmo que eu os aceite, em mim não caberia demasiado clichê, não como motivo.
A minha raposa é a do Pequeno Príncipe, a que é cativada, a que dá valor ao tempo que se dedica àqueles que se pensa comum e que só nós, raposas, sabemos que é pelas horas, pelos dias, semanas e meses, que se tornam únicos. Quem não sabe do que estou falando deveria ler mais... deveria fazer como Antoine de Saint-Exupéry recomendou e ler "O Pequeno Príncipe" em três fases de sua vida.
A raposa é preguiçosa, tem os olhos cerrados, é do deserto e está certíssima em seus segredos, tanto que me confundi ao escolher qual deles gravar junto, de qualquer forma, não vou me esquecer de que me tornei responsável por aqueles que cativei, de que foi o tempo que dediquei a minha rosa que a fez tão especial, de que os rituais são necessários, mas daqueles diálogos dela, o que simplifica tudo é:
"O essencial é invisível aos olhos"... só se vê bem com o coração, em português de preferência, como a Vivi recomendou.
Posso dizer agora que, literalmente, sou meio raposa.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Em português
Foram três meses. Tentei guardar o texto, tentei não falar da coragem pela igorância... não consegui. Deixar desenhar-se é um processo e vem acompanhado dos pensamentos, nas horas que se passam em silêncio, no meu silêncio, do barulhinho da máquina e da dor.
E neste silêncio, que se desenrolava em horas psicológicas muito mais longas que as cronológicas, refleti sim, depois do anestésico... na verdade, no início, o que mais fiz foi xingar e depois de perceber o erro que vive em esbravejar num momento em que o corpo está todo concentrado em apenas um ato, agradeci, à la Seicho-No-Ie mesmo: "Muito obrigado, muito obrigado..." e passei pelo "Imagem verdadeira, harmonia e perfeição" também.
Mas aí que a gente se acostuma a viver em qualquer contexto, o meu foi de dor, e nesse tempinho de pele espetada, pensei de alunos, diários, provas, médias, amigas, ex, xadrez até girafas no zoológico.
Como ouvi das tatuadoras, da madrasta e das amigas "Mas você já se acostumou com essa dor, não?"
E guardei para mim a última conclusão dessas sessões: o humano não se acostuma a tudo não, até recortadamente ele se acomoda, mas, no caso da dor, não há ser que não fuja, que não se rebele e que não a queira sempre longe. A dor é sempre nova e sempre dói do mesmo jeito, por mais aceita e conhecida que já seja. Prova disso é o choro que derramamos em todas as mortes de queridos que vivemos, todos os namoros que rompemos, todas as dúvidas que passamos, cada tatuagem que fazemos.
Meu desenho completo não é para todos, inteiro mesmo é só para os íntimos, o que prova mais uma vez que o "essencial é invisível aos olhos".
terça-feira, 12 de julho de 2011
"Um risco, uma passo, um gesto..."
Expôr-se a tratamento de choque,
ela pensou.
Leu Redatoras de Merda,
comeu doce-de-leite,
ouviu Litlle Joy, Paralamas e Apanhador Só.
Falou mal de homens com a amiga...
repensou parar de parar de tomar o controlador hormonal,
escreveu...
e teve uns dias em que chorou escondida.
Pintou o cabelo,
descoloriu-o e pintou de novo...
conheceu homens,
conheceu mulheres...
perdeu a cronologia dos fatos.
Hipotetizou.
Pensou em voltar atrás...
rezou por um futuro novo.
Depois de rasgada, dobrada e redobrada,
formou em pássaro, assim como o origami,
cansada.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
"Gosto de ficar ao sol, leãozinho. De molhar minha juba..."
Ando imaginando-me a andar pela areia molhada, bem a beira do mar, os pés afundando na areia lamacenta, gostosa, puxada pela água que vai embora e volta molhando minhas canelas.
Ando imaginando-me a mergulhar na água salgada, o nariz arrebitado e os olhos ardidos de sal. A onda quebrando, as vezes, antes que eu me restabeleça... o que me relembrará mais uma vez que sou totalmente do planalto central, nenhum hábito litorâneo.
Ando imaginando-me a sair das ondas, talvez a jogar um pouco de lama numa amiga e a caminhar até a areia fofa, branca... as canelas sujas de areia e o corpo impregnado de sal. A procurar uma ducha e perceber que a mais próxima está longe... então, ando imaginando-me, a tirar o sal com gelo ou água mineral. Ando imaginando-me a avermelhar as bochechas branquíssimas... a esfriar a pele na água e aquecê-la ao sol. Ando imaginando o cheirinho de Sundown!
Ando imaginando-me a sentir a maresia na descida para o litoral, na chegada à praia e ouvindo as ondas quebrarem ritmadas, da minha cama.
Ando imaginando-me a sentir o calor úmido do litoral, o cansaço do fim do dia, a vontade da noite. Não, não ando imaginando-me a catar conchinhas! Não tenho mais paciência para elas!
Ando imaginando os pôres-de-sol que posso ver, os cocos que posso beber, o sol que não posso pegar, os mergulhos que posso dar, os dias e as noites que quero passar, as marcas que posso ter.
Acho que o verão é na praia.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
terça-feira, 28 de junho de 2011
Eu: mosaico de opiniões.
Dias gelados me deixam ainda mais sonolenta. As vezes imagino que nasci para dormir. Mas estes dois últimos raros dias em Goiânia, dias de fumacinha saindo pela boca, edredom aconchegante, cama feiticeira, travesseiro afundador não foram aproveitados nas tardes frias que tivemos aqui no oeste, estive pintando paredes ao redor de uma piscina com 35 crianças, digo, pré-adolescentes.
Em resumo, resumimos em desenhos grafitados na parede da escola o livro "O menino do dedo verde" e pude neste tempo meditativo de pincel que desce e sobe, vai e volta, preenche e borra, decidir que não mais perderei tempo com partes que não me preenchem, que não colorem minha alma.
Busquei a vivência e a confirmação de que os valores valiosos eram os que eu seguia e para isso precisei abandonar o caminho que sempre andei. Daí que vivo o paradoxo de acreditar no trecho dos Engenheiros: "Mas a dúvida é o preço da pureza e é inútil ter certeza"... Só crê na verdade destas palavras quem provou do desconhecido e se tornou próximo, esse verso é o conselho de um bom pai.
Então, um dia houve sim um muro branco em mim... cheio de questionamentos sobre os bons motivos da vida... aqui raciocinando, existem tantos narradores... tantas facetas de uma pessoa só, sem bipolaridade, já disse várias vezes: sou ambígua. Eu: mosaico de opiniões. A de agora é: só gasto meu tempo com labores interessantes, para tanto a seletividade é a palavra do momento, minhas horas estão muito mais ótimas otimizadas e eu muito mais colorida.
(Apesar de tudo, me resta dizer que provei de vários lados e ambos são gostosos. Tem gente que gosta de algodão doce e tem gente que gosta de jiló! Eu adooooro os dois! - Para diluir um tanto o moralismo, sem diminuir a densidade do conselho!)
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Nozes.
Vinícius de Moraes aconselhou que fosse eterno enquanto durasse. Eu acrescento que seja eterno enquanto houver saudade... Tem gente que sempre será eterna... e isto é o único fato que é presente do futuro, mesmo que estivesse no pretérito imperfeito.
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Eu não quero voltar sozinho
Que para todas as pessoas o mundo seja belo assim e que todas elas sejam intelectualmente capazes (...)!
(Premiado em: Troféu Sapuari 2011, Troféu Dom Quixote, Prêmio Sindcine de Qualidade Técnica em diversas categorias!)
(Premiado em: Troféu Sapuari 2011, Troféu Dom Quixote, Prêmio Sindcine de Qualidade Técnica em diversas categorias!)
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Brevemente
Se até dos números duvidamos da eternidade, é natural que questionemos a nossa.
O infinito pode pesar,
O infinito pode pesar,
mas deixa as coisas mais leves.
(Estive com saudades de textos curtos)
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Entre mentes.
Sentei-me na cama ontem a noite. Minha cama é dessas que se senta e afunda... mais parece ela um abraço. Ontem minha cama abraçou minhas pernas.
Pés sobrepostos um a cima do outro, apenas nas pontas, o corpo sentado sobre as panturrilhas, quase como uma judoca. As mãos justapostas de forma triangular a uma distância de três polegares do nariz, os joelhos dispostos a distância de dois punhos, os olhos levemente fechados, o olhar para cima e a coluna ereta. Meditei.
Algumas situações eu, confesso, evito. Evitei durante muitos dias meditar e me perguntar quem sou eu e principalmente evitei meditar em prol da minha verdadeira felicidade, mas algumas coisas são inevitáveis. A verdadeira felicidade por exemplo, tenho medo dela, mas ela vai chegar. E acreditem, isso não faz parte apenas dos sete meses que se antecederam a este texto...
Parece estranho falar em medo da verdadeira felicidade, mas este medo existe sim, principalmente quando se está gostando do que está vivendo, mas sabe que o que está acontecendo não preenche o seu eu mais íntimo e sabe que meditar é acordar aquela raposa que existe dentro de nós adormecida e de repente quer acordar aos grunhidos mais fortes... por isso estou a mantê-la durante tanto tempo pelas costas... o paralelo é que em mim, ela está cada dia mais viva, mais colorida e não estou falando da minha tatuagem. Algo em mim quer ser cativado, mas algo em mim tem medo e muitas coisas por aqui ainda não tem valor, o trigo por exemplo para mim, não significa nada... mas...
Enfim... resumo aqui todo o significado que tem na minha vida o ato de meditar.
Meus pés, na cama quente, logo começaram uma dança de pontinhos piscantes internos, pequenas formiguinhas... choques sem força, que logo se tornam dormência e logo se tornam nada. De meditar gosto de tudo: gosto da paz, gosto dos pés formigando, gosto da tensão no braço, gosto do domínio do corpo pela mente, gosto dos pensamentos que jorram... dos pequenos ruídos que ouço e normalmente não percebo dos outros apartamentos, amo o silêncio e amo me encontrar ali quieta, pronta para conversar e ouvir o que há de vontade mais íntima aqui.
É por isso que faço o shinsokan (algo como contemplar Deus no/pelo pensamento) na forma mais original que posso. Se amo sashimi, guioza, hashis, kimonos, barcas, hot holls, sake (=P), e todo diabo a quatro que envolve a cultura japonesa... se nasci com os olhos puxadinhos numa vida goiana totalmente ocidental e amo o oriente. Se neste planalto central do Brasil, nasci numa família que segue uma religião Seicho-No-Ie, então meditar eu também gosto é em japa! Nada de cadeirinha.
Me sinto menos convicta das atitudes a tomar do que nunca, mas me sinto mais pronta do que nunca para aceitar o que é meu e espera há tanto pela palavra de ordem "Venha".
Foi por isso que hoje acordei pensando que a ideia é uma semente plantada. Vejamos a colheita!
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