quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Você pode pensar que isso é um poema mas é só o começo de um outro livro mesmo.


Você também pode ter tudo isso que está na minha expressão. E veja: é só isto que pode ser nesse círculo vicioso que é o cálculo de sua vida e as peças que ela prega na gente:

Ele é todos os sonhos que tive, é o merecimento que colho, é todas as cartas anônimas que deixei de escrever pra ninguém, dizendo que eram contos de ficção. Você é a felicidade sendo escrita, é o sentimento verdadeiro, é a certeza do Eterno, é o desejo do mundo. 

Aquele pro qual eu só escrevi recados entregues, só recebeu de mim pequenos bilhetinhos, é esse aqui que não me deu tempo pra escrever de você... Não me deu tempo pra rabiscar linhas nem de falta, nem sobre a sobra. Você é o meu presente; aquele que não envergonha declarar, porque é certeza. É a explicação daquela antiga falta que eu sentia de não sei o quê. Só é. É aquele poema que vai ter nome.

Ele é a minha falta de inspiração. O que cura, o que assume, o que vive. O que não teve medo, o que aguentou o tranco que a Bah disse que eu sou e que ninguém segurou. É o meu pedaço intacto, sem remendos, sem agradecimentos forçados, é aquele que não está na minha pasta de fotos velhas de alguns dias atrás.

Tudo aquilo que eu sempre soube aqui dentro que eu mereço, tudo aquilo que eu não fui atrás, tudo aquilo que chegou e tomou posse da propriedade de domínio natural. A intuição instintiva. A recíproca verdadeira. A decisão tomada. O acontecimento espontâneo. 

A narrativa de sucesso, longe dos enredos fracos sobre gente que tem problemas. Uma história sem conflito, a trip que todos nós estamos esperando, que todos nós merecemos, que todos nós sabemos que temos e não vemos por mais que tentemos.

Aquele que veio depois do final da estrada de horizonte que não se vê, a viradinha da curva que você descobre que existe, que se insinua no vapor do asfalto quente, na estrada longa e longínqua.

É a inversão do meu eu: “Eu só”. Invertido o passado, virou presente, mudaram-se as posições. Acabou (finalmente) a ambiguidade inapercebida, repetida em meus versos: “É só”, “Eu só”...

Aqueles recadinhos que nos mandamos do profundo da inconsciência mais distante e silenciosa: É o último texto. É o último eu te amo. Você só é mesmo e eu só te amo. 

(Para ouvir com Passenger.)

sábado, 22 de novembro de 2014

Antes que 2014 acabe ou saia de dentro enquanto há tempo.


Este é um texto sobre tudo que eu não imaginava que podia acontecer. É uma redação sobre aquela coisa de quando você desistir sem perder a esperança nas relações positivas da vida, ela vai acontecer pra você. É um texto sobre postura mental... ou talvez um ensaio sobre energia. Um ensaio mequetrefe sobre a vibração que a gente cultiva por dentro.

Eu, que sou uma Zé ninguém travestida de mim mesma, compreendi que é assim que a vida é: você precisa se tornar a sua teoria para que ela ocorra no mundo prático. As pessoas, seja lá qual for o momento, tendem a se tornarem o que são por dentro e saiba: é inevitável sair de dentro. Uma hora ou outra, todo mundo sai... E você pode tentar impedir isso, assim como alguns pais impedem seus filhos de serem gays ou algumas mães impedem suas filhas de colocarem alargador ou pintarem seus cabelos de verde. Tudo acontece na vacilada: É aquele pequeno momento que você se distrai que a pessoa sai de dentro, e essa pessoa pode ser você mesma, ou alguém que você está dominando para que não exploda pra fora a essência de dentro. Não se reprima, já cantavam os pagodeiros dos anos 90.

Eu, por exemplo, ansiava por escrever. Meus dedos precisam digitar. Mas o tempo e os acontecimentos me retardaram nesta produção aqui. Sabe aquela coisa do mundo ir acontecendo, o trabalhando ir sufocando, a vida mudar e as prioridades emergirem? Ocorre que, desculpe, minha essência escreve até na reflexão mental, é sobre textos que eu penso all the time. Minha alma funciona pela redação. São todos os segundos desses 25 anos uma narrativa, uma história construída pelo que se passou, pelo que espero que ocorra e pelos enredos que invento aqui do lado de dentro. Outro dia escrevi: O que quero que aconteça e o que faço com o que ocorre.

Bem... Toda história tem dois lados. Este é o meu. Eu não vou contar como as coisas aconteceram, eu acho que basta dizer que todo o turbilhão que me fez chegar à conclusão, que é o que eu preciso contar pra você que está aí perdendo seu tempo me lendo, aconteceu de uma só vez e sem que eu esperasse e como foi rápido e inesperado, óbvio que atropelou etapas... Foi aquele turbo da corrida que se você consegue controlar, te faz ganhar o jogo. De repente apertaram o turbo velocidade do meu carrinho do Need for Speed e um ciclo se fechou pra abrir um novo.

A questão é, claro, que às vezes a felicidade da sua vida esbarra no planejamento da vida dos outros. É claro que quando você parte pra novas estradas, você deixa pra trás uma parte do seu caminho, nem sempre tudo pode acompanhar, acompanha na lembrança, acompanha no coração, acompanha na essência que é o que a gente é, mas não acompanha necessariamente na vida concreta e a gente aprende a lidar com isso com o passar do tempo.

Desculpe se eu te deixei ou se esbarrei na sua vida pra que a minha continuasse, com a vivência todo mundo vai aprendendo que essa lógica é inexorável, a diferença é a delicadeza com que você leva as coisas. Delicadeza sempre foi um exercício pra mim, daí que já nasci pequenininha pra evitar catástrofes.

Mas, péra! Calma! O que eu preciso contar nessas letras, é isso aqui: Cara pessoa, o mundo acontece praquela gente que se torna sua própria teoria. A vida e tudo que você reza pro universo te proporcionar vai acontecer, você vai inevitavelmente sair de dentro, não tem jeito das coisas darem errado na vida da gente... A questão é a demora que vai demorar... E ela vai depender muito mais de você se tornar a prática do que você deixa sair pela sua boca do que das pessoas e do mundo a sua volta.

Não adianta acreditar que se colhe o que se planta e desejar/esperar a má colheita do outro. Não adianta querer amar e não acreditar que existam pessoas amáveis. Não adianta querer um emprego melhor e não exercer direito seu próprio cargo atual. Não adianta falar mal do ensino de sua escola e não cumprir com as atividades que ela propõe para te ensinar. Não adianta falar mal do comportamento alheio e fazer o mesmo em retribuição ao semelhante. O mundo não é uma fábrica de realizações ocas e ele gosta de gente verossímil, seu raciocínio é lógico.

A minha teoria se resume numa frase: “Nasce se só, morre-se sozinho”. A vida é uma questão individual, você precisa aprender a gostar de ti mais do que qualquer outro alguém.  E talvez precise passar a dispensar companhias, porque a sua é a melhor. Você vai precisar ir ao cinema só, fazer compras só, sair, viajar, andar e viver só, até que deixe de perceber que está em descompanhia. Desse modo, um dia você passará a ser priori de quem te coloca como priori, porque você é a sua própria prioridade... Uai!? Mas isso aí eu disse em outro texto fajuto meu. Então porque estou repetindo há tantos dias essa reflexão, enquanto vou pro ponto de ônibus ouvindo música?

É porque durante muito tempo essa foi uma teoria que não passava de um conceito que eu havia compreendido, mas não havia internalizado. E quando eu a escrevi, ela já estava aqui dentro do que sou, mas ainda não era eu. Ela era aquilo que eu tinha que fazer. E eu nunca contei isso pra ninguém, mas eu sempre penso assim de mim enquanto estou trabalhando funções progressivas: “Eu sou uma formiguinha executadora, a minha função é fazer com que dê certo”. Esse exercício de colocar as teorias em prática até que se tornem habituais e até que o hábito se torne mecanismo natural de comportamento é a atividade que exerço bem: o dom de transformar a teoria em prática até que ela vire do avesso, saia de dentro e se torne visível (Ou, pelo menos, tento).

Enfim, outro dia caí de gaiata almoçando com duas alunas do terceiro. Aí uma falou assim pra outra: “E você deixou ele?”, “Deixei! Agora eu sou priori de quem me coloca como priori”. Velho, aquilo foi um baque pra mim, porque essa frase eu tinha escrito num texto e essas alunas falaram isso e teceram em mim aquele olhar de quem comunga daquela ideia, um tipo: “Eu li e fazendo!”. Aí eu entrei na minha sala, sentei em minha mesa e pensei: “Hey, sua titica de galinha, tá na hora de você fazer aquilo que você fala!” e cá estou eu encerrando um ano de coordenação pedagógica, morando sozinha, tentando equilibrar família e amigos, namorando um cara maravibeautifull, preparando o ano que vem e, sim, tudo isto está lindamente difícil, cansativo e ideal.


Ou seja, pra quê este textão todo tão confuso? Ele é pra dizer: Pare de repetir coisa feia! Comece a idealizar pra você a vida que você quer e passe a fazer da teoria de vida que você tem aí dentro de você, uma verdade. Pare de pensar negatividade! Existe gente legal, trabalho legal, vida boa e do jeito que você quer, desde que você sintonize a sua energia com a energia correta do universo... 

Pare de falar mal das mulheres de hoje, dos homens atuais, deixe a segunda-feira em paz, trabalhe mais, saia de férias, estude (Estude sempre, a humanidade peca pela ignorância), esforce-se, arrisque, saia de casa, ou continue, se é justamente esse o caso, muda aquela coisa lá que você sabe que já passou da hora, desapega se já aconteceu o que você não queria que acontecesse, parte pra próxima. Faça essa sobrancelha junta sua ou afirme a Frida Kahlo que existe em você. Tome uma atitude individual por você mesm@. Deixe a vida coitadística de lado. Afirme-se. E fazer isto não é complicado, mas também não é pra quem tem preguiça.

(P.S.: Sobre a foto no instagram: Eu não esperei.)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Urina ou xixi?

Essas eleições acabaram e, ao contrário da maioria postante dos meus amigos, eu não tenho respostas e nem argumentos e antes que eu receba algum comentário me chamando de alienada: talvez eu seja mesmo, porque hoje, eu simplesmente não estou entendo o que passa. Na verdade, e eu não sei se isso é verdade, fiz parte daqueles 38 milhões de eleitores, que representam um número maior que o de eleitores do estado de São Paulo, que não foram votar. Vejam bem: eu disse NÃO FORAM VOTAR e não que votei nulo.

Nestas eleições eu simplesmente não compareci à zona eleitoral, aliás, este nome nunca coube tão bem ao momento! Não fui e me senti realizada por isso, sei inclusive que irei responder a essa responsabilidade a qual me abdiquei. Mas comprei essa multa de 3 reais por motivos muito básicos: nenhum dos candidatos que me apresentaram me representa. Não concordo com a política de nenhum deles, todos eles me enojam, cada um por determinadas características, e não seria o fato de eu querer mudanças políticas no meu país, que faria eu acreditar que esta mudança POSITIVA seria Aécio, também não acreditei que a Dilma (uma presidente que se intitula presidenta), testa de ferro do PT e de um grupo que comanda o Brasil faça um bom trabalho, faz o mínimo dentro das obrigações e deixa um outro tanto gigantesco a desejar.

A nível estadual, me deram duas opções ridículas, a qual me recusei mais ainda a votar: Íris ou Marconi. Li no facebook de um amigo: “Marconi, nunca te perdoarei por me fazer votar em Íris”. Tínhamos a opção de um coronel  novo e antigo e um coronel babão velho gagá. Um sucateia nossos institutos educacionais, o outro não pagava nem seus funcionários públicos em dia. E como este desabafo não é uma lista de todos os problemas de cada um dos candidatos, não irei enumerar aqui o quanto cada um destes 4 políticos é um tapa na minha cara.

Na mesa de almoço do restaurante em família, enquanto éramos diariamente obrigados a assistir horário político (Se fosse em casa a televisão estaria desligada), a vontade que eu tinha era a de comer e ir diretamente para um tatuador, tatuar BURRONA em letras garrafais na minha testa, porque é o mínimo que esse sistema governamental que seguimos deve pensar de nós.

Apesar de todo esse período revoltante, eu fui atrás de textos da Terra, da Uol, da Folha de São Paulo, Caros Amigos, a Veja não, realmente não! Eu li tudo que me apareceu e pareceu minimamente respeitável. Vai um agradecimento aqui a todos meus amigos que postaram tanto sobre seus candidatos, acreditem, estava lá eu, tentando formar uma opinião. Questionei meus amigos, meu pai, meus irmãos e toda e qualquer pessoa que eu pensasse que tivesse um ponto de vista mais crítico. Encontrei gente a favor de Aécio e gente a favor de Dilma, encontrei também gente como eu: confusa.

Por fim, sempre me restava uma pergunta interna que vem crescendo cada vez mais com essa ressaca virtual política: Será que essas pessoas não percebem que os candidatos todos tem pontos que motivariam um voto, mas todos estão afundados numa lama corrupta? Será que as pessoas que tanto defenderam PSDB ou PT não se deram conta que os dois são dois porqueiras!? Que estávamos optando pelo cocô e as fezes?

Daí que concluí, por meio de tantas respostas que recebi, faladas e escritas, que o voto é um mecanismo de transformar toda essa palhaçada política que vivemos em algo legalizado. A Dilma foi eleita, o Marconi foi eleito e eles não representam uma galera, pior: Eles vão continuar fazendo o serviço torto deles, maaaas eles foram eleitos, o povo votou, elegeu, legalizou, os colocou lá mais uma vez. E se tivéssemos tirado, seriam Aécio e Íris? Eu sinceramente não sei o que é pior! Ainda não sei, mas agora eles já estão lá e eu ainda estou confusa.

Estou confusa porque o brasileiro vota por índices de pesquisas que pudemos perceber não correspondem ao que acontece na vida prática, o brasileiro vota naquele que tem mais que 30% de possibilidades e eu odeio essa frase “O brasileiro...”, mas sobre isso eu não sei como funciona lá fora. Eu sei é que aqui é que sou OBRIGADA por lei a me dirigir a uma urna eletrônica e escolher entre a titica de galinha e o estrume do cavalo para fazer valer a democracia (Oi?).

Estávamos na piscina em Caldas Novas no dia da eleição e um pai comentou do meu lado pro seu filho:

- Temos que ir embora, vai se secar.
-  Mas por que tão cedo, papai? – O menino tinha uns 7 anos.
- Por que eu tenho que ir votar.
- Mas você é obrigado a votar?
- É... é isso.
- Mas por quê?
- Por que é lei, vai logo.
- Tá... Mas você não acha isso estranho?
- Anda logo, menino, para de perguntar!

Eu e meu namorado (Sim, o mundo perdeu uma solteira convicta) rimos. As pessoas deixam de questionar o óbvio. Mas eu questionei isso aí, e obrigados mesmo não somos, temos que pagar uma multa, nos deslocar um pouquinho algum dia, mas ninguém foi lá me tirar da piscina em Caldas, amarrada, e me levou até minha zona (Adoro!). Eu não fui votar nesta eleição e me senti livre, senti que não agredi meus princípios. Porém algumas coisas me agrediram:

- Me agrediu o comportamento agressivo e elitista, enrolado num véu de alternância de poder e intelectualismo, de gente do meu convívio ou não. E sinceramente, torci para que Aécio perdesse por conta desse pessoal, exclusivamente, que fala com quem não era a favor dele, como se fosse ignorante, que agride verbalmente e ameaça o futuro do outro com frases de “Esse povo merece, quero só ver agora”. E olhe que eu estava à procura de gnose (Saudades, professor Rogério de literatura portuguesa que sempre explicava o sentido de ignorância, o ato de não saber).
- Me agrediu a charlatanice da Dilma.
- Sempre me agride a baba do Íris e o olhinhos de cobra do Marcone.
- Me agrediu a apresentação de todos esses políticos como se fossem anjos cheios de bons princípios acusando o adversário capeta dos infernos da corrupção, como se todos não soubéssemos publicamente algum escândalo político deles.
- Me agrediu planos de governo mirabolantes, assim como resultados maravilhosos que não vi, daqueles que estavam tentando se reeleger.
- Me agrediu gente que ia votar no Aécio, mas estava votando em Íris (WTF!?), ou a dupla DilMarcone.

Apesar de tudo, achei bonito a forma como meus amigos petistas demonstraram seus pontos de vista, mesmo que eu tenha achado, vez ou outra, daquelas paixões canalhas cegas. Enfim, quando o Chris me perguntou quem eu preferia, no domingo, eu respondi: Prefiro o apocalipse zumbi. – Porque, pelamordedeus, gente! Será possível que vocês acham que íamos mudar pra melhor? Ou será possível que vocês acham que esse governo é bom!??

Eu prefiro uma reforma política, eu prefiro um novo sistema, eu prefiro não ir a esta festa da democracia mentirosa, eu prefiro continuar trabalhando, eu prefiro que abram logo um concurso público pra educação, pois desde que eu formei, meu estado não fez NENHUM pra Letras em Goiânia (4 anos), eu prefiro ganhar bem sendo professora, eu prefiro ser atendida por médicos brasileiros que cumprem horário corretamente como qualquer outro funcionário no Brasil inteiro, eu prefiro não pagar plano médico e ter um sistema de saúde de qualidade pra mim, que serei atendida, e pro médico que tem que atender, eu prefiro que todos trabalhemos com qualidade, eu prefiro não ser assaltada em qualquer esquina, eu prefiro não ter medo da própria polícia do meu país, eu prefiro um sistema de transporte urbano público como o que vi na Áustria, eu prefiro não ficar sem água ou energia.

Eu só não prefiro esse desgoverno. Eu prefiro que as pessoas questionem o óbvio. 

sábado, 13 de setembro de 2014

Chá de fita.


Eu não sei se o certo é dizer que sou louca,
 ou falar que compreendi
e aceitei
o fato de que sou louca.
A questão é
que assumo:
Definitivamente
sou
louca...
 ou enlouqueci.
Um enlouquecimento sem retorno.
Sinto muito.
Sinto me
muito, mais
verdadeira agora.
Retomei a realidade natural.

Não, eu não fiquei mais bonita,

eu fiquei mais eu.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

2014 – Sobre foras.


Eu ia deixar pra escrever este texto depois que eu começasse a namorar... Porque, no caso deste aqui, namorar seria um respaldo para minha teoria e, mais, seria aquele suspiro final, que o autor dá uma esperancinha pro coração da gente, uma moralzinha, do tipo: Calma! Você vai se dar muito mal, mas no fim vai encontrar alguém legal... Bem, sinto dizer: Acho que no final, vai ser só fim mesmo, pelo menos pra este texto aqui.

Outra ressalva necessária para esta leitura é: Às vezes alguém compartilha os textos da Cereja e me intriga alguns comentários do tipo “Quem essa moça pensa que é”, então, neste discurso de autoridade de nossa sociedade meritocrata, gostaria de execrar meu vasto curriculum lattes de autoridade superior que sou phD, a arte do fora:

1989 – 2000: Gostei de 300 meninos que não gostavam de mim porque meu pai mandava cortar meu cabelo chanel, enquanto todas as minhas coleguinhas tinham o cabelo arrastando na quadra da escola (Sim, ele usou uma ótima tática). Isso era muito chato quando todo mundo ganhava ursinho e chocolate secreto no dia dos namorados, menos eu.

2001: O primeiro fora a gente nunca esquece. Eu nunca tinha nem beijado na boca e com 11 anos me convenceram a pedir pra ficar com um menino de Brasília, eu estava presa num encontro de igreja, ele me deu um “Não” até educado “É que eu já estou ficando com outra”, ele tinha 12 e eu tive que encará-lo durante mais 3 dias, massa demais! Há boatos hoje que ele virou um travesti (Juro!).

Ocorre que depois dessa eu decidi que nunca mais tomaria iniciativa com ninguém e assim o fiz, acabou o texto. Mentira! Porque o fora ele não precisa ser verbalizado, o fora não é só a negativa que você recebe pela fala da boca que você quer que te beije, o fora também vem implícito, ele é a recusa, pode ser a simples não correspondência e ele dá uns tapinhas no nosso ego ferido.

2002: O primeiro beijo. Pode até ter gente que diz que não lembra essas coisas... Eu não vou dizer na cara desse pessoal que eles são uns mentirosos, mas... sei não, hein!? Eu tinha 13 anos, fui a uma festa e tinha um menino lá que queria me pegar, uma menina que havia estudado comigo chegou em mim pra ele, ele não era lá essas coisas, tinha um cabelinho de cuia loiro e eu achei isso meio brega, mas vá, vamos acabar com isso logo. Fui lá na árvore, o beijei e saí. Cheguei em casa, bochechei bastante Coca-Cola (Porque, se desentope até a pia, ia tirar aquela saliva nojenta, daquela língua grossa e aqueles dentes cheios de aparelho dele), espremi metade do Colgate na boca (Mentira, era Collinus), escovei os dentes por 10 minutos pra esquecer aquilo tudo, não adiantou e eu tive a séria impressão que o cheiro dele tinha impregnado em mim.

2003: Acho que nessa época meu cabelo cresceu, eu tinha dado uns beijinhos, abri a porteira pra olharem pra mim e meus seios eram maiores que o das meninas das minhas turmas, isso era um ponto a mais, na verdade dois pontos a mais: OO.

2004: O primeiro namoradinho. Terminou comigo 7 meses depois, eu achei que ia morrer, o mundo tinha acabado, a vida não fazia sentido, acho que vou lá pista de gelo do Shopping andar de patins, nossa que cara gatinho, vou pegar ele, vou olhar até ele vir falar comigo, oi tudo bem, prazer, ficamos alguns dias, descobri que ele fumava maconha, achei muito pesado pra mim, parei de atender o celular, naquela época as pessoas se ligavam, o encontrei um dia no shopping: “Sumiu, uai!”... “Pois é... o tempo tá corrido”... “Mas estamos de férias”... “É... pois é... Falou, valeu”.

Acho necessário contar aqui que esse foi o momento em que comecei a dar fora ao invés de levar, mas antes quando eu fazia a 5ª série, um garoto chamado Adriano subiu na carteira da sala e gritou que estava apaixonado por mim, eu me escondi dentro da lixeira e fiz um vudu pra ele morrer, mas não deu certo. Também houve alguns casos recortados, como o de um outro menino que quis namorar comigo depois que a gente deu uns beijinhos... Aí eu entro no caso da situação:

A situação é o que faz a gente ficar a fim de alguém, mais do que a própria pessoa. Tanto que as vezes a gente convive anos com alguém e não se toca que essa é a pessoa da nossa vida, aí uma situação qualquer se forma e faz a gente perceber que tem magia alí. Esse garoto eu beijei dentro da sala de aula, levei advertência por causa dele, aí brochei. Ainda mais que na minha cabeça, ficar era só uma vez. Depois que eu fui entender a dinâmica da coisa e também eu não queria namorar com 13 anos, não com ele.

2005 – 2009: Moço! Tive um namoro tão longo que quase casei. Começou a conversa de financiamento de casa na Caixa, e eu não sei porque, esse programa “Minha casa, minha vida”, chega me arrepia os pêlos de repulsa... aí eu comecei a pensar em terminar, terminei e eu não sabia fazer isso, fiz da forma mais grosseira possível pra ver se ele entendia que tinha que sair da minha vida. Coisa de gente imatura. A gente aprende mais tarde a respeitar os sentimentos alheios. Aliás sobre sentimentos alheios:

Hoje entendo que quando alguém se interessa pela gente, claro que existe a situação construída, mas tem uma parte disso que é completamente culpa nossa, a gente que se constrói interessante e seduz espontaneamente o outro. Não há necessidade de correspondência, mas sempre há a necessidade de respeito ao próximo, principalmente a esse próximo que percebeu algum tipo de beleza em nós, desde que ele também faça isso com respeito, caso contrário, mão verbal na cara.

2009 – 2011: Apaixonei por um menino de outro estado. Descobri que namoro a distância não existe.

2012 – ad infinitum: O mundo acabou e acho que na cota foi qualquer possível namorado, aí então resolvi passar o rodo na comunidade gayânia. Depois arrumei uns rolinhos vários e no final tudo sempre mirra, por mim ou pelo outro.

2014: Eu nunca passei um ano em que me envolvi tanto com quem fiquei. E foi um de cada vez e muito. Tenho amigas (e mil amigos) que ficam com várias pessoas numa cadeia alimentar de importância que vai da mera comidinha a quem eu largo tudo pra ficar (E normalmente esse alguém o coloca como mera comidinha), mas eu não dou conta de fazer isso. E o meu não dar conta beira o patamar de nem tentar, não me interessa fragmentar meus sentimentos, misturar os gostos. E isso pode durar uma semana, um mês, meses ou anos. Mas 2014 foi o ano em que comecei trocentos romancezinhos que miaram, por mim, ou pelo outro e todos ótimos, só que sem nenhum grand finale, tudo na base do esfriando.

Posso fazer uma analogia da forma como como no prato: Eu coloco o arroz separado, o feijão separado e cada mistura (é assim que a minha mãe chama) numa posição separada, aí saboreio cada um, sentindo o gosto individual, até terminar o prato. Eu nunca gostei de pegar o garfo e dar aquela batida na comida toda, é assim que eu faço na vida: Quando fico com alguém fico só com ele, saboreando, mesmo que aquele mexido na panela seja uma delícia (mas não quero entrar agora na pauta de suruba), porém acho que tô mastigando demais, saboreando demais, a comida gela e eu não gosto de comida fria.

Daí que 2014 foi o ano dos foras. Inclusive, quero deixar claro aqui: Estou cansada de dar e levar foras. Que dinamicazinha chata, gente! E todas elas acabam com meu ego. Porque numa eu fico me sentido uma titica de galinha e no outro eu fico me sentindo uma sem noção. Esta parte deste texto (Que eu sei, está muito grande, já vou finalizar), vou dividir em duas.

Sobre foras I – Dar fora: Quando você é adolescente e começa a ir pra balada, é muito legal dar fora, isso eleva a autoestima. Até depois de adulto, quando a gente vai pra balada e não dá nenhum fora, volta meio triste, se sentindo feio, certo!? Errado! Eu passei a tratar com a maior educação quem chega em mim em qualquer lugar, porque a pessoa já tomou toda a coragem de dar a cara a tapa e ainda vou eu, somente pelo fato de o outro ver encanto em mim, ser rude? Non, non, non. E existe toda uma postura que se adota, mesmo na balada. As pessoas sabem quando você está praquilo ou não, então a coisa mais normal que existe é ninguém chegar em você, oras! Ser/estar feia é um caso preocupante se isso acontecer em frente a uma obra, somente!

Existe um caso complicado: Quando você já explicou pra pessoa que não rola, quando você já deu indícios disso e a encrenca continua te chamando e insistindo pra sair. Aí você sai, não pra ficar, mas pela insistência e como já, inclusive, deu todos os indícios de que “Desculpa, mas hoje é não”, você vai, aí dá o fora dos foras e fica se sentindo uma sem noção. Cara! Sinceramente! Vai tomar no cu você que me expõe a este tipo de situação! Vai tomar no cu duas vezes você que depois ainda sai falando que eu fiz cu-doce, desculpa aí! Você que é burro!

E existe uma situação meio-termo que é a mais recorrente de todas: O cara do demorou cair a ficha. A menina é a mais bonitinha, é engraçada, bebe com o cara se ele bebe, fuma com o cara se ele fuma, vê filme legal, conversa coisas interessantes, tudo isso ela faz só porque gosta também, ou seja, ela é espontaneamente phoda. Fica disponível pra ele, mas também tem seu tempo individual pra fazer as suas coisas particulares e o filho de mãe só esnoba.

Aí você desiste, “Chega!”, segue a vida, conhece outras pessoas, finalmente se desvincula do outro, enterra a esperança, parte pro próximo, supera. E o cara larga o alcoolismo, muda da casa do pai, separa da esposa, compra um carro e começa a te chamar pra sair no whatsapp, facebook, e-mail, a bater na sua casa, A TE TELEFONAR! A curtir suas fotos, perguntar sobre você. Véi! Qual o problema dessa gente que espera a onda passar? Esse é o que eu chamo de fora torto. Isso é o que me faz pensar: Fui espontânea demais e o mundo não sabe lidar com isso, as pessoas gostam de gente que faz joguinho de atenção. Eu não sou essa parte da população. Maaaas... você simplesmente não vai encontrar ninguém que assuma que faz isso, pelo contrário, todo mundo está aí se perguntando: Onde estão as pessoas normais? Enfim, o cara passa a ser espontâneo e isto teria sido super legal há um mês atrás. Este fora eu não vou dizer que é de todo ruim dar, porque é quase uma revanche, mas dá uma sensação de “Até quando, SEM OR!?”.

E essa sensação de fracasso do fora torto é meramente por uma coisa, o fora quem levou primeiro foi você, dessa mesma pessoa que você agora está recusando. E esse fora que você levou primeiro é o pior de todos:

Sobre levar fora II: 1) O esquecimento: Esse é o tipo de fora que eu tenho mais raiva, o que mais me faz sentir que sou um cocô. Porque você conversa com a pessoa todo dia, sai com ela toda semana, pensa nela, ouve música lembrando algumas coisas... pra no final das contas, ele sumir. Não mandar mais nada e quando você manda alguma coisa, dar aquelas respostinhas michas, um hahaha aqui um uhum acolá. Eles vão fazendo tanto isso que você vai se irritando. Aí começa a dar bolo e insinuar de todos os modos indiretos e sem explicação direta pra você que não rola mais. Quando isso acontece a primeira vez, você demora sacar, mas o próximo “Uhm” vira a sirene de uma ambulância de “VAZA!”. Aí eu aprendi a vazar, mas eu vazo me sentindo uma titica de galinha que precisa entender sozinha o que aconteceu, mesmo que seja só: “Já te comi o suficiente” e ele nunca mais manda nada, te encontra na rua e sorri amarelo, maldito!

2) O direto: Oi, Lilian, eu sei que por whatsapp não é o melhor jeito, mas a gente começou por aqui, acho que dá pra terminar por aqui. Na verdade acho que não rola a gente ficar mais... tô sem tempo pra me dedicar a alguém e ainda gosto da minha ex, você é massa, mas acho que agora não é o momento pra me envolver e vamos convir que você bebe demais, eu gosto mesmo é de cocaína. Boa sorte aí. – PERFEITO! Ele até foi sincero, mas prezou pela educação, todo o multiverso podia ser assim, melhor só se ele tivesse a coragem de falar isso na minha cara depois de pagar um japa, e claro que isso é coisa de mulher, sorry, homem não faz isso nunca.

3) O fora graças a Deus: Aquele que você não sabe como dar o fora em alguém que daria tão certo com você, não fosse a falta de química. Aquele que a gente tem certeza que é a natureza de zoeira com a nossa cara, o destino falando: “A vida é muito mais que combinação de gostos racionais, você tem que se lembrar da biologia”. Aquele que você leva em banho-maria pra ver se melhora ou aparece alguém melhor e te impulsione a dar o fora, mas aí o outro faz isso primeiro, antes que você, te tira essa carga e você até dá um abraço de “Obrigada!”.

Portanto, depois de um tempo você aprende a dar fora sem até que a pessoa perceba que você que deu, ela sai feliz pensando que ela que saiu por cima. E também para de se importar com o fato de que talvez você ganhe um toco, porque fora o risco do toco, há o risco do aceite.


Desses aí eu tive todos este ano, chutei e fui chutada. Ora, mas não só de foras se vive a vida. Sempre existe um lado positivo. O ano ainda não acabou e eu tenho a minha tese: O bom do fora, levado ou dado, é que ele sempre precede um próximo romance, que vai que é o correspondido totalmente!? Sim, eu faço a linha criança esperança, não terminei esse texto dizendo que sou graduada doctor master blaster e tenho um namorado que prova que eu tô certa, mas tô aí na atividade de pesquisa de campo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Pulo da Gata.


Eu sou aquela que nasceu e não sabia pra quê, mas o mundo avisou, depois que algumas pessoas já tinham percebido. Porque, às vezes, existem aqueles indivíduos ao nosso redor, que normalmente muito nos querem bem, e eles tem a capacidade da percepção, observam em nós aquilo que ainda não nos demos conta.

Quando mudei para o apartamento novo com a mãe e a irmã, o quarto que escolhi media 10 por 10. Era um quartão! Ainda tinha o guarda-roupas embutido, o que me lograva um espaço útil maior ainda. Pintei as paredes, coloquei a cama de casal, troquei a cama por uma de solteiro, uma escrivaninha, uma tinta por cima dos desenhos, duas cores diferentes para as paredes, finalizei com uma cortina preta pro sono de sábado e domingo e do final da tarde. O quarto ficou eu e eu adorava ficar naquele quarto, ele era uma extensão da minha alma bagunçada.

Ocorre que, certa manhã, quando voltei às 4 para tirar o cochilo da tarde, ele tinha diminuído meio metro quadrado. E cada dia que eu chegava, meio metro comido, aos poucos meu quarto atingiu os 4 por 4. Surpresas da vida, um dia cheguei em casa e ele era um corredor entre a escrivaninha e a cama. A escrivaninha tinha virado o balcão da cozinha.

Um domingo, depois de passar o dia na chácara, quando volto para casa, o banheiro tinha entrado dentro do quarto. Meus cremes, minhas maquiagens, meus sabonetes, shampoo e creme dental, que eu sempre escondi as marcas dentro do guarda-roupas, tinham sido engolidos, aquela minha máscara de 250 reais violeta matizadora, para desamarelar cabelos loiros, meu irmão preto e castanho tinha usado metade.

De baixo daquele telhado tudo era engolido, seis anos atrás comeram minha Nutella toda na única prateleira que sobrou no meu corredor entre o balcão da cozinha e minha cama. Daí que acabados os produtos da natura semana passada, comecei a usar o shampoo e o condicionador para cabelos cacheados da minha irmã, era o único que tinha no banheiro e deu um efeito interessante nos meus cabelos lisos. E o Koleston da minha mãe... O creme de barbear do outro irmão pra depilar as pernas mais fácil... Foda-se, eles comeram o pedaço de lasanha que eu trouxe da sobra da festa e eu tô precisando de um brinco... da Vívian.

A gente se desgasta por dentro por essas miudezas do cotidiano e abate o outro, vai ficando complicado viver junto, aí a gente aprende até a parar de reclamar a invasão, ou melhor, começa a maldizer pra dentro, aliás, com o tempo, até começa a deixar de propósito o creme dental melhor na pia e o sabonete íntimo no chuveiro, porque “vá, todo mundo merece um pouquinho de colgate branqueador” e “todas as mulheres dessa casa (que vem diminuindo progressivamente) tem direito a um sabonete refrescante pra xoxota”.

É um amor confuso, um afeto complicado. Não é mais como na infância que todo mundo usava o Neutrox que agora enfeita a janela do banheiro e eu só abro pra sentir nostalgia no nariz. Passou a fase de brigar com os meninos porque estavam queimando acetona no fundo de casa e, na real, achar uma experiência química ‘daora’. Acabaram os bombris queimados a noite e o pique - esconde no quintal, fim bolinho de lama que eu obrigava o Vini a comer. Acabou, mas o amor cresceu, só não cresceu junto o apartamento. Só não veio com os centímetros a mais (não me venha com essa piadinha velha de tamanho again) a certidão de dona da casa, quem manda aqui sou eu... E eu também não quero, não alí, alí é a casa querida da minha mamis que eu quero visitar rotineiramente.

Eu achava que não tinha crescido (na verdade eu cresci pouco mesmo cale sua boca), eu pensei que aquele apartamentão estava a diminuir diariamente. Eu acho que perceber que quem cresceu realmente foi a gente é o primeiro passo pra procurar seu próprio espaço. Só agora estou aprendendo a lidar com o rodízio do banheiro e com os o café da manhã dos namorados de final de semana da minha irmã... Ou eu nunca aprendi, mas nesse último mês, quando percebi que era fim de temporada nessa minha vida seriada, eu resolvi parar de brigar em família, relevar, porque afinal, talvez eles não saibam, não acreditem, não perceberam, eu estou me despedindo. 

É a primeira vez na vida que eu não irei compartilhar tudo que mais tenho apego com todos que eu mais amo, seja este mês ainda, ou mês que vem e isto cabe uma dose a mais de paciência. Bem... essa conclusão deveria ser para a vida toda sempre: O conceito de deixar tudo legal, porque sempre estamos partindo definitivamente.

Meu pai, minha mãe e a minha madrasta sempre souberam, muita gente soube antes que eu soubesse de mim... Eu sempre tive a necessidade de ir embora, “Um espírito livre”, a Lu disse. Eu sempre quis a minha casa, mesmo que ela tenha 35 metros quadrados, com os meus desenhos ou não na parede, a minha cama japonesa (?), o meu fogão do pregão e quem eu quiser que entre a hora que eu quiser. E veja, eu descobri que há de se abrir mão do dinheiro da balada ou dobrar a carga de trabalho pra continuar subindo, eu vou morar no terceiro andar.

Para os provincianos que não entendem que não é só casando que se sai de casa na mesma cidade, estou dizendo: Tá na hora de crescer e tomar a responsabilidade da existência, daqui a sete dias ou no próximo mês. Não dá pra morar a vida toda na casa da mamãe e não dá pra arrumar um marido só pra isso, muito menos pra semana que vem (Apesar de que eu já tenho toda uma ideia pra uma cerimônia legal), até porque eu ainda quero escolher tudo tão sozinha quanto morarei.

Tem um diálogo que eu admiro bastante e é recorrente em minha vida, no qual sou sempre uma observadora, e que eu absorvo, dizem pro meu pai:

– Sorte sua que o senhor tem uma escola, porque, se não, ia falir com esse tanto de filho!
– Eu só tenho esse colégio por causa dos meus filhos... – A resposta é sempre a mesma – Eu tinha que sustentar uma família com seis crianças e ainda pagar a escola deles. Logo, eu montei uma escola, porque assim eu podia pagar as contas e ainda me eximia das mensalidades escolares.
– Eu nunca tinha pensado por esse viés.
– Pois é... A necessidade faz o sapo pular.

Meu pai é um homem sentimental, bem... dizem que eu não sou... Ele me ensina a viver. Quem não arrisca não petisca, eu vi (vivi) isso a vida toda.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Carta de suicídio OU Aquele desabafo que EU poderia ter feito desde os 15 anos, com as devidas adaptações, mas faço depois dos 25.

Cansei de cara idiota! Quem é você que pensa que foi a única pessoa que percebeu que eu formei? Que acha que foi o único que viu que eu sou bonita, legal e inteligente? Que sacou que eu tenho família e a esqueço da porta do quarto pra frente, ou na sala, ou na escada e até em locais públicos se estiver com tesão? Quem é você que se acha no direito de julgar inconscientemente que é a primeira pessoa que se tocou que eu sou interessante e que eu estou disponível? Você acha mesmo que você é o único que está me mandando essas mensagens rasas e fazendo esses convites mequetrefes?

Eu estou aqui perdendo minha noite de sono depois de algumas cervejas artesanais para dizer a vocês homens que perdem tempo: ninguém como eu vai te esperar. E isso não é prepotência individual ou feminina, é apenas uma forma de falar que estou, eu, figura feminina, cansada de suas enrolações masculinas.

Não espere você que eu espere que termine seu namoro, saia da casa dos seus amigos, acabe seus copos de cerveja e/ou seus cigarros para estar comigo, faça isso, sim, claro, sem imaginar que vou, eu, esperar você.  Não infira, sozinho em sua liquidez egoísta, que estou disponível para seu descaso. Não, eu não estou disponível para você. Estou simplesmente livre para qualquer um que estiver disposto a me querer na mesma sintonia e tempo que eu. Sou a favor de conhecer aquele que vai me comer até eu me esgotar na minha vontade, que vai estar comigo pela noite e pela manhã da mesma forma... e que vai entender que se ele sumir, outros homens irão aparecer e que ele perderá o posto de prioridade, porque, meu querido, sou priori de quem me coloca como priori.

Então, se você perdeu o bonde, se você vai perder o bonde, se você não quer me comer até me ralar inteira e depois casar comigo, mesmo que simplesmente nem cheguemos a nos beijar, se não vai se envolver comigo, vaze do meu whatsapp, do meu messenger, tire-me da sua agenda telefônica, não me procure mais, porque eu me envolvo e eu também preciso ler, sair, visitar azamigas... 

Eu não tenho tempo pra enrolação, já passei da época de dar uns beijinhos e esperar oportunidades mais profundas o dia que a mamis viajar e não vou te responder mais depois que a minha onda passar, pegue o tempo no tempo ou perca a oportunidade de sairmos juntos a hora que você quiser, pois, sim, eu só respondo prontamente quem eu quero, mesmo que meu celular, assim como o seu, sempre esteja à mão. Bj.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Nada além de uma garrafa retornável.

Hoje eu acordei desesperada. Existe alguma ansiedade que desacredita no futuro. Uma falta de ar, o sufocamento dos que não enxergam o começo do poço. "Sobreviva à reciclagem". É que eu enxergo daqui o horizonte passado que não planejei. Algo como olhar pra trás e observar o longo caminho percorrido e não avistar a linha da estrada a seguir. 

Eu inclusive gostaria de falar de você... mas você não me inspira mais... não me inspira contar sobre nossas declarações embriagadas que só existem no embriago. Acho que por aqui tudo é fim. E o final é o horizonte lá de longe, no final do horizonte uma parede de estrada que tampa toda visão. Estou sentindo o desencanto de tudo que se finaliza: o sufoco. "Sobreviva à reciclagem".

O sufoco é o fim. E ele se aproxima bastante do suspiro de um novo início. Mas um não faz parte do outro. São duas etapas em divergência. Elas inclusive são destacadas uma da outra, mesmo que estejam lado a lado. O sufoco e o suspiro. O suspiro é o ponto de otimismo. "Sobreviva à reciclagem". Talvez um incenso, algumas palavras e várias músicas ajudem os últimos respiros.

Existe um tarde demais pra tudo nessa vida quando você vai deixando as horas passarem, acreditando no tempo. Sempre tem uma atitude adiada, não adie, e sobreviva às reciclagens. Sobreviva a cada transformação. Não é a primeira, não será a última. É involuntária e é porque escolho. Continue respirando.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Contra o tempo

Não é que acabou.
Mas quando a esperança já simplesmente não existe
Sempre existirá um é tarde demais.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Um texto ridículo sobre o dia dos namorados


“Eu tinha um namorado” – Essa é a frase que se repete em muitas das minhas histórias há 4 anos, lá no passado e ela repercute em várias instâncias:

1ª – Eu tinha: no pretérito imperfeito, um tempo lá do passado que se repetiu (E como!) e que ficou lá no passado mesmo.

2ª – Nos tempos em que eu era a namorada, a frase para contar histórias que incluíam ex-namorados era: “Meu ex”... aí o tempo se passou e todos os namorados se tornaram ex, e eu comecei a perceber que essa palavra “Meu” antes do “ex” era muita posse de algo que já não era meu, era a posse do que eu não quis e mais ainda: a posse do que não me quis, aí aquela denominação meu-ex passou a reverberar nos meus ouvidos, dizer "meu-ex" virou quase um arroto em público que me constrangia e aí virou uma frase de simplesmente situar o tempo: “Eu tinha um namorado”.

"Eu tinha um namorado" delimita minha vida entre a eu compromissada e a eu livre. E a palavra não é solteira, porque é bom lembrar que namorados também são solteiros, e mais ainda: solteiro é a propriedade daquele que nunca casou, uma vez casado, nunca mais solteiro, talvez divorciado, viúvo, mas solteiro nunca mais, meu bem. Solteiro é a oportunidade única da vida. Aliás um bom apontamento é este, não existe estado civil namorando, relacionamento sério.

Então eu comecei a namorar aos 15 e olhe, em relação as menininhas espevitadas da escola em que estudei, eu fui a última. Cada um de meus relacionamentos deixou uma marca, um pedaço de mim que se dissolveu e fez de mim cada vez mais uma outra pessoa. O primeiro foi com um daqueles caras que querem tirar a virgindade da primeira macaca que aparecer, no caso, eu fui a macaca.

Uma coisa que aprendi com relacionamentos é que quando você se machuca muito feio em uma relação, sempre aparecerá alguém que te curará os traumas... Dos meus namorados (naquela época eram meus), um deles eu queria ter namorado a vida toda, eu queria ter aguentado com ele os defeitos dele e mudado os meus e talvez seguido aquele padrão de vida que de repente eu me dei conta que não se encaixaria jamais em mim, mas aí o amor acabou. E eu descobri que pior que ser rejeitada é terminar um namoro.

Enfim... tive uma série de relacionamentos a diante que nem ao menos merecem ser contados, esses eu classifico no arquivo do “DEU ERRADO”. Outro apontamento que acho válido: Como eu já li status de auto-ajuda a dizerem: "Terminar um relacionamento não significa que deu errado, deu certo durante algum tempo". UMA OVA, MEU FILHO! Deu errado sim, deu tanto errado que acabou, se a massa de um bolo está uma delícia e na hora de assar, o bolo sai murcho, ELE DEU ERRADO! E problema da massa que estava uma delicinha antes, bolo nunca será.

Daí que eu nem sabia o que era ser eu. Comecei a namorar tão cedo, que quando pude pensar sozinha pela primeira vez na vida, eu estava pensando a dois e depois a dois de novo e sempre a dois e algumas vezes a três também (Porque nada melhor que descobrir a dor dos chifres).

Logo comecei a pensar e a entender o que era o mundo apenas pelos meus olhos, comecei a precisar eu mesma formatar meu computador e a decidir o que faria eu dos meus finais de semana e como tomaria conta daquela noite sozinha aos 21 anos. Até então, eu sabia nome e sobrenome de todas as pessoas com as quais havia me relacionado. Até então eu ia financiar uma casa da Caixa, comprar eletrodomésticos nas Casas Bahia e casar na chácara do meu pai. Até então, meu pai não sabia com o que eu gastava meu dinheiro, mas meus namorados me faziam quebrar meus cartões de crédito. Até então, minha mãe não queria saber a diferença entre eu beber uma taça de vinho ou uma adega inteira e meus namorados controlavam até mesmo se seria UMA taça tinto ou branco.

Mas pra mim, a pior coisa de meus namoros errantes era o controle via celular. Deixasse, eu, cometer a besteira de chegar em casa e esquecer de mandar a mensagem de cheguei, depois da facul: já tinha pegado pelo menos uns três calouros da agronomia no campus e dado o perdido quando atendesse o telefone ciumento em casa. E esses telefones ciumentos foram os cabides ciumentos, foram as maquiagens ciumentas, os passeios ciumentos, os cabelos ciumentos e qualquer coisa que eu quisesse fazer com meu próprio corpo e minha própria vida que não incluísse a companhia do meu namorado.

Daí que lendo essas coisas todas e relembrando minha vida amorosa, eu me pergunto porque hoje eu sinto falta de alguém? Na verdade, acho que eu sou parte das amigas solteiras que os namorados das minhas amigas morrem de medo que as chamem pra sair. E sou também aquela amiga solteira que todo mundo sabe que pode contar pra socorrer: uma companhia, um conselho, uma roupa, uma maquiagem sempre a pronta entrega. Minha irmã sempre ri quando uma amiga sai das trevas do passado mais remoto possível e depois de anos de namoro com qualquer um, ressurge das cinzas. Uma amiga minha disse uma vez que a dúvida do namorado dela era: "Por que essa menina bonita não namora? Ela deve ser o capeta".

É um outro problema de ser alguém que não namora há um tempo se você não tem farinha saindo do rosto quarado de espinhas: Você só pode ser o capeta. E na verdade, ninguém é necessariamente ruim o suficiente para não ter alguém. Descobri recentemente vendo os casos mais bizarros possíveis de relacionamentos que, realmente, não existe frigideira, toda panela tem sua tampa.

E olhe, acho mesmo que as pessoas precisam de um tempo sozinhas para descobrirem quem são. Outras já tem a sorte e a maturidade desde sempre, minha irmã namora o mesmo rapaz desde os 15 anos dela, quando eu comecei esse rali.  

Eu gosto de ter descoberto que eu sou tão boa assim sozinha, gosto do que levei de cada um e do que deixei... e nessas horas até repenso a parte do Deu Errado. E eu sinto falta também de filme em casa com pipoca, dividir cama, acordar com a camiseta grande dele, mandar mensagem de bom dia e receber também, conhecer e pegar as manias do outro, implicar com carinho... enfim... descobrir um universo dentro do meu.

Mas veja, gosto do meu universo, gosto de ir ao cinema sozinha ou com a Bah, gosto de escolher tudo que é meu, de me espalhar na minha cama e de dormir com cabelo molhado e acordar a Negra Li sem ninguém pra assustar do meu lado, gosto de assistir seriado sozinha, viajar sozinha pro FICA com uma garrafa de vinho pelo rio, gosto de encontrar pessoas ao acaso e de tecer experiências antropológicas aos montes sem culpa e divisão. Gosto de fazer vinte tatuagens se eu quiser da noite pro dia sem pitaco alheio.

E pra quê tanta autoafirmação de uma tia solteira (Sim, nos anos 50 eu seria uma feminista convicta e largada, meus irmãos teriam filhos e eu seria a sapatão escondida da família)?

É pra dizer feliz dia dos namorados a todos vocês que tiveram a chance de encontrar alguém que os complete sem lhes ferir o eu. É pra sussurrar que todo mundo quer conhecer alguém que dá certo no primeiro beijo e que você pode virar a noite com esse alguém qualquer sem nem perceber. É pra dizer que dia dos namorados é lindo quando você perdoa até os defeitos do outro, porque acha bonitinho. É pra suspirar aqueles encontros que eu observo tão gostosos quando vejo os casais de longe.


É pra contar que amor não prende, que é ótimo cruzar universos, que sexo com paixão é o melhor de todos, que cotidiano é massa e lembrar a você que encontrou seu par e não tem dúvida de que quer passar o dia dos namorados só com ele: Você deu sorte, filhote! 

É pra aconselhar a você que ainda não se decidiu se vai ou se fica: Na véspera do dia dos namorados é paia terminar, espere o dia 13 pra finalizar isso. E a você, que não encontrou nada disso ainda: Vai na fé, irmão, você não é uma frigideira! Porque como diz uma amiga minha que leu este texto antes que eu publicasse: Não demora, que o tempo corre.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Salve um aluno.


Todos os dias eu vou trabalhar numa escola. Agora eu vou como coordenadora e nem sempre estou tão perto dos alunos como eu gostaria... mas estou lá atrás de cada um dos professores projetando formas de levar, à cada um daqueles meninos que nos foram confiados, o mundo dos centros culturais, da leitura, do sentimento, da amizade, do perdão, das percepções históricas, matemáticas, geográficas, políticas... 

Houve uma época em que eu estive ligada estritamente a Língua Portuguesa e eu tentava ampliar minha chegada o máximo possível ao mundo fora dos muros da escola e dentro também. Hoje eu faço isso um pouquinho em cada matéria... às vezes eu fico pensando em minha sala, e em casa, e na faculdade, e no carro, e nas viagens, e no banho, e na troca de roupa, como fazê-los perceber que as matérias estão no mundo. Sim, professor pensa seu trabalho o tempo todo.

E vez ou outra eu preciso, durante a semana, após o dia de trabalho, tomar uma cerveja com um amigo e fazê-lo ouvir meus desabafos sobre estritamente a minha escola e amplamente o sistema educacional... numas dessas eu acabo chorando, porque eu sou chorona. E chorona que sou, eu choro no banheiro pensando sobre tanta coisa que precisa ser feita... eu choro vendo vídeo de professor sendo agredido por aluno e choro de raiva assistindo jornal na hora do almoço que tira sempre toda razão da escola e do professor. Choro vendo aluno dando errado, dando certo e quando vão embora, porque terminaram as etapas.

Em todos esses momentos eu penso muito em continuar e penso muito em desistir. Quem trabalha com educação trabalha em equipe e às vezes se vê muito sozinho... é que o bombardeio vem de todos os lados. Todo mundo percebe que o sistema faliu, os alunos, os professores, os coordenadores, os diretores, os proprietários, os pais, quem já passou por uma escola sabe, tudo precisa ser mudado. E a gente está tentando todos os dias mudar e cada mínima mudança perceptível tem um pai pra tirar o filho da escola, um dedo apontado, uma secretaria da educação pra pressionar, um aluno pra não querer participar porque o importante mesmo é passar no vestibular e agora no ENEM.

Eu quero, e neste aspecto eu digo com conhecimento empírico, porque eu cresci na parte de dentro de uma escola, como aluna e como filha de professor e diretor, é um mundo onde as pessoas saibam criticar com propriedade e queiram colaborar. Por aí temos dezenas de pessoas a criticar tudo que fazemos e temos quantas dispostas a se responsabilizar completamente pela educação do próprio ente? A colaborar com a escola? O que eu vejo desde os 11 anos é uma porção de pessoas que mal pagam uma mensalidade, entregam seus filhos na porta da escola e se dispõem a execrar todos os defeitos da educação, a questionar o professor pelo mal desenvolvimento do filho, a responsabilizar a instituição escolar por todo fracasso e vez ou outra pelo sucesso ou nas instâncias públicas: a colocar a culpa no Estado. 

A rede pública tem professores faltosos porque, fora o salário, o professor não tem aparato dos pais, incentivo dos alunos, tão pouco do governo. Eu confabulo: se assumíssemos, cada um de nós, nossa devida responsabilidade, os governos sambariam como sambam em nossas caras tão descaradamente? O que ocorre rotineiramente é: Se o estudante fracassar a escola é ruim e a culpa é do professor, se vencer é pelo que ele recebe de preparo em casa e conseguiu por conta do que ele mesmo já é. Se ele bombar: processo no colégio, se ele for excelente: cadê nossa bolsa de estudos? Será que não dá para perceber que o trabalho é mútuo?

Existe uma nova  (se não já antiga) demanda social que é a de educar para a vida, as mães e os pais estão em seus empregos e alguém precisa fazer o serviço educativo, mas isso é um trabalho em conjunto e que, me desculpe quem o recusa (e eu compreendo muito bem), já está aí.

Eu, como professora há 8 anos, formada, coordenadora pedagógica (Isso deve valer de alguma coisa, não é possível) estou disposta a mudar esse sistema falido, eu e uma série de amigos e suas escolas (Apesar de que muitas somente se beneficiam da produção em série). Porém, nós, sozinhos e enxovalhados de ofensas à instituição como um todo (Nos jornais, no dia-a-dia, nas bocas, nos facebooks, instagrans, youtubes, whatsapps, blá, blá, blá), vamos conseguir com muito mais lentidão.

Mesmo que este texto esteja chorando mágoas, o meu cotidiano entre alunos é construído com risadas. Entre alunos, entre professores, entre secretaria. Nós trabalhamos todos para esse trabalho valer de algo e o fazemos de modo a ter sentido. Penso que todo aquele que não vê sentido na escola, deveria ajudar-nos a repensá-la e arregaçar as mangas, pois, como eu disse ainda esta semana para a mãe de uma aluna: As críticas precisam ser trazidas o quanto antes para que possamos resolver os problemas, caso contrário não é crítica, é apenas reclamação... e resmungo, sinceramente, não ajuda em nada.

terça-feira, 15 de abril de 2014

domingo, 30 de março de 2014

Agora é hora de você



Ela é a menina que precisa esperar, já percebi. Cada dia se vê mais a margem do que planejou para si e apesar de desistir diariamente, por empirismo, dos poucos pedaços românticos que lhe restam, ela continua não abrindo mão de suas teorias idealistas... é que ela entende a rigidez do mundo, mas vive a esperança no universo.

Eu só acho estranho que as coisas aconteçam assim, tanta demora, tanta pedra no meio do caminho, tantos castelos de areia. Mas ela, ela entende que o organismo vivo ao qual ela pertence tem seu tempo e que tudo se explica quando acontece.

Ela lembra de uma fábula budista que conta de um viajante perdido no deserto e que encontra um palácio farto de água e alimentos. O viajante irá morrer em poucos instantes, mas aquele castelo no meio do nada lhe nutre e conforta e ele não falece. Mas aí que depois de bem cuidado, quando acorda, o viajante se dá conta que o castelo sumiu. Ela não lembra o nome dessa história, ela também não sabe ao certo se é budista... Mas ela pensa sobre os inúmeros castelos que já lhe apareceram e já lhe foram, ela os nomeia de castelos de areia. Ela caminha seu caminho, e nesse seu caminho muito particular e verossímil dentro de sua pele, ela espera pelo palácio de pedra.

Sim, ela aguarda o palácio de pedra para pertencer, aquele que continue. Ela se recusa a procurá-lo, ela vai caminhar pelo deserto, sozinha e independente como uma boa raposa, vai caçar todas suas galinhas e roubar todos seus quintais, vai levar consigo tudo que puder, e perder também, dos castelos de areia que a enganarem para que ela sobreviva. Traz consigo as marcas desses castelos que se foram nas pequenas dispersões e agora já não os adentra sem cautela. Ela é parte do que os tornou justamente interessantes... E ela será encontrada pelo seu, porque como eu disse, ela renuncia a procura direta, mas não nega os encontros improváveis.

terça-feira, 11 de março de 2014