terça-feira, 1 de março de 2011

Sou o que leio.



“Olhando para fora da parati branca, quadrada, no trânsito congestionado de São Paulo, se dirigia para fora, lia o letreiro de alguma propaganda qualquer, ele era amarelo, ela tinha sete anos, o pai no volante, ela atrás, voltava da escola e admirava quatro ou cinco palavras escritas”. – A lembrança mais antiga que tenho com as letras.
Aprendi a ler na escola, aprendi a entender o que lia com meu pai, aprendi a oratória com minha mãe e a amar ler com o curso de Letras e foi esta a função de formação de leitores que a universidade exerceu em mim.
Na verdade, narrar como formei a leitora que sou hoje, desde que entrei na universidade, exige que conte como resolvi entrar... Principalmente porque imagino que seja possível contar em poucos dedos quem são aqueles alunos que não entraram para as Letras se não pela literatura.
Prestei o vestibular para este curso porque amava escrever, amava escrever porque amava meu pai, ele é escritor e amava ler, por isso me obrigou a ter esse sentimento tão carinhoso pelo hábito, que inicialmente era conflituoso justamente pela obrigação. Minha relação com a leitura sempre foi de amor e ódio, sempre! Inclusive hoje.
Minha infância se dividiu em duas fases, a dos pais casados e a dos pais separados. Nasci e cresci em Goiânia, mas fui alfabetizada em São Paulo, onde morei dos quatro aos sete anos. Essa fase da vida foi casada, aos finais de semana, fora os passeios comuns, fazíamos, eu, meus pais e minha irmã, passeios cultos e comuns para os paulistas, visitávamos bienais, feiras do livro, exposições.
Nessa época meu pai trazia livros para mim e minha irmã que trouxessem lições de vida para o caráter e a personalidade tão evidente que tínhamos. Outro ponto importante é que não posso falar de mim sem falar da Vivi, minha mana. Certo dia, meu pai trouxe para Vivi o livro “Rita, não grita!” e lemos juntos para que ela compreendesse como era escandalosa. Para mim, papai trouxe “O reizinho mandão” e também lemos juntos para que eu entendesse que não era bom mandar nas pessoas como eu mandava aos seis anos de idade. Não adiantou muito para nenhuma das duas, mas nunca pecamos pelo desconhecimento.
Éramos uma família como a dos ursos da Cachinhos Dourados, sentávamos à mesa todos os dias para almoçar, cada um no seu lugar, líamos a oração da refeição em voz alta e Vivi e eu sempre brigávamos para quem ia ler. Nas minhas memórias o texto era enorme, mas aos treze anos de idade encontrei este livrinho de orações e me dei conta de como mudamos nossos pontos de referência de dimensão das coisas, inclusive dos textos.
Na verdade, após ter esta percepção, procurei por textos que eu amava pela recordação e julgava grandes. Encontrei, minúscula, a história do Marreco na cartilha em que me alfabetizei, uma historinha que lia e relia, que me encantava e me fazia sentir uma grande leitora, de cinco linhas. Reli meu romance predileto da pré-adolescência: “O safári dos montros” e me arrependi depois, pois me desiludi com a (des)complexidade dos enigmas e mistérios do livro.
Quando voltamos para Goiânia e meus pais se separaram, o único programa literário que tivemos tempo de fazer foi o dia em que papai me levou com todos os irmãos para a gibiteca da Praça Cívica, eu, a mais velha, com nove anos.
Como meu pai se mudou para a mesma rua que a gente já morava, para que mesmo assim pudéssemos nos ver todos os dias, todo final de semana passávamos com ele no apartamento e enquanto meus irmãos brincavam no pátio do prédio, lá no quarto andar, na janela acima, eu lia, resmungando no início, entretida no final, quase todo domingo, um livro literário, dos quais vez ou outra pulei páginas e me confundi na hora de contar a história para o doutor pai, que me fazia ler de novo.
Dessas obras de fim de semana, a que mais marcou tudo que ainda sou, foi o “Sobradinho dos Pardais”. Como chorei, aos dez, onze anos de idade, ao ler a história sofrida dos passarinhos que saem da mata e vão para a cidade sofrer. Indiquei a leitura a quem pude, fiz minha mãe ler e me contar o enredo assim como meu pai fazia comigo e por fim, ele acabou jogado numa caixa de papelão, perdeu-se em uma das várias mudanças.
Observei diversas vezes que meu pai passava horas de frente pro computador escrevendo qualquer coisa demorada que me impedia de brincar no paint, foi aos 12 anos de idade que de repente me dei conta que ele era um escritor e que estava a lançar o livro “O Pasto do rebanho”, inspirado na obra de Fernando Pessoa.
Sempre me orgulhei de contar a todos que meu pai escreve e guardei a matéria do jornal comunicando o lançamento de seu primeiro livro, quando uma amiga ia em casa, orgulhosa, eu mostrava.
Toda vez que eu fazia alguma coisa errada, minha mãe pegava o livrinho de orações da Seicho-no-ie, nossa religião, e me colocava para ler em voz alta, para que ela pudesse ouvir da cozinha. Eu no quarto, lia para ela, que já tinha o livro de cor, as orações em forma de poema.
Tinha que recitar, cada vez que li aquele texto da Sutra Sagrada, compreendi algo que ainda não tinha percebido e não faço a menor ideia de quantas vezes o li, já que lia nas doenças, nos castigos, nas cerimônias, nos agradecimentos, nos pedidos e aonde mais o pudesse encaixar. Ainda hoje, quando leio os versos poéticos daquelas orações, compreendo melhor o ensinamento dessa religião oriental, na qual cresci. E minha mãe não só formou a boa oradora que sou, mas também me mostrou que o caminho do texto é o da releitura.
“Assim! Isso é bom para eu refletir também, se a gente for pensar, toda nossa criação foi pela leitura: a diversão, os castigos, as recompensas, os problemas e as soluções” – Comentou o Vinícius, mano rapa de tacho de mãe e pai, depois que li para ele parte do que já tinha escrito aqui.
Também outro dia, numa conversa com a Dassa, entendi que os irmãos formam nosso caráter. A Vivi sempre foi meu ponto de referência, praticamente minha irmã gêmea, um ano de diferença de idade. Por isso, sempre me esforçava para ler, mesmo que tivesse dificuldade em deixar os muros, as árvores e a terra, simplesmente porque ela devorava seus vinte livros por férias e eu não podia ser a analfabeta da família, pensava, principalmente sendo a mais velha.
Então, quando entrei pro ensino médio e pensei que fosse estudar sem a sombra da irmã, meu pai conseguiu fazer com que ela não fizesse a 8ª série, a progrediu direto para o ensino médio, para que estudássemos juntas e tivéssemos o mesmo bom ensino. No início relutei em aceitar, por fim, encontrei nela a melhor amiga, a melhor professora e a irmã mais chata.
Aprendi gramática com a mana e foi a mana que sempre me repreendeu nas treslouquices e ininterruptamente me aconselhou e me ouviu. Foi ela quem me incentivou a ler, a fazer teatro e a ler todos os Harry Potters, por amor e por competição. E por causa dela também, que para todos passaria de primeira no vestibular, pensei em escolher um curso que me agradasse, óbvio, e que eu não corresse risco de ficar para trás. E foram todas as indicações dela que sempre li sem receio, pois ela sempre soube me indicar boas leituras.
Depois de tanto raciocínio, de tantas ponderações, de pensar não só nos conceitos infantis, optei pelo que não via como obrigação para ser minha profissão, pensei que dar aulas, por mais que fosse um trabalho, nunca me daria sono, sempre me envolveria... além do que, a leitura, fora da competição com a irmã, já me agradava e sempre me fez entrar em conflito interno, por que não Letras? Só me vinham “Sims” à mente.
Quando entrei para o curso de Letras, ainda era uma adolescente de dezessete anos, não fosse a carga literária que eu já tinha, teria sido muito mais difícil passar do primeiro período. Tornei-me adulta dentro da Universidade Federal de Goiás. E não só pelo tempo, cronologicamente pouco, que estive ali, mas pelo que ela me construiu de reflexão.
Mil vezes entrei em sérias crises existenciais por tudo que li no meu curso de graduação dentro da Letras e nos cursos de Núcleo Livre. A pessoa que entrou nesse curso, em março de 2007, foi uma menina preconceituosa, homofóbica, com claro conhecimento de que necessitava muito mais conhecimento do que tinha e que iria conseguí-lo durante o curso.
A pessoa que se forma nesse curso e que nunca sairá dele, porque uma vez dentro se torna parte dele, é uma adulta, com menos preconceitos e que tenta combatê-los, sem homofobia, com claro conhecimento de que aprendeu muito, mas necessita muito mais conhecimento do que tem e que, por meio de suas leituras, estará em constante renovação.
Por mais que eu tente, não consigo me lembrar das minhas primeiras leituras na universidade, lembro bastante das discussões de textos de redação de vestibular com a professora Mary Fátima. Lembro inclusive, que já no segundo ano de faculdade, quando comecei a lecionar, esta mesma professora se aposentou e na porta de seu gabinete, deixou uma pilha de textos na porta, no chão e me avisou para que, se eu quisesse, pegasse alguns, óbvio que peguei.
Dentre os achados, encontrei umas sessenta cópias de um texto de meados dos anos 80, sobre as minorias sociais não serem minorias quantitativas e como usei este texto com meus alunos e promovi debates em sala de aula e internos.
Lembro claramente dos livros, mas não me lembro do que falavam, eram livros de introdução à linguística e de introdução a literatura. Recordo nitidamente que meu primeiro ano foi o mais conteudístico, o que, apesar de saber que não, mais me parece ter lido e estudado e o ano em que discutia com meu pai, que também fez Letras, sobre como eu estava sabendo mais teoria que ele. Engraçado que eu não sabia nada, depois percebi que, na verdade, quanto mais estudamos, mais necessitamos estudar, mais percebemos que ainda sabemos pouco.
As matérias de literatura do primeiro ano, com a professora Sueli Regino nos dois períodos, são as que mais ficaram na memória, mesmo que eu lembre desses dias como se fossem na infância, posso ouvir sua voz fina e doce dissertar sobre as influências do Rei Luís XIV, o Rei Sol, na arte... sobre narrativas de moldura e inclusive contar sobre histórias de Sherazade, falar sobre Racine, o que me faz lembrar o romance que lemos: Don Ruan, de Molière, que me fez perceber, na época, que eu tinha um namorado problemático, visto que se identificava com ele exacerbadamente.
E foram analogias, complicadas assim, que fiz com quase todas as boas leituras que fiz. Exatamente por isso continuo lendo, quero ver se sempre terei epifanias. O fato é que a boa leitura normalmente me deprime, por isso digo que ainda mantenho certa relação de ódio com ela. Qual constantemente provoca mudanças em minha vida e crises existenciais (o que com os textos que leio dentro do curso de Letras são muito mais intensas), como quando li “As Moscas”, de Jean-Paul Sartre e resolvi me eximir de culpa, não funcionou, mas me acrescentou.
As leituras que esta professora indicava, sempre tinham um pé nas artes cênicas, formada que era em Belas Artes, lemos também “Édipo Rei”, “Lisístrata” e “Boldas de Sangue”.
Nos outros anos do curso me ative a teoria literária, como a maior parte dos alunos, preterindo o estudo dos romances pela crítica, o que sempre achei um erro, mas o cometia, sempre com a justificativa das aulas que eu lecionava e das provas que chegavam, enfim, minha muleta sempre foi a correria cotidiana.
Apesar disso, foi com os textos teóricos da área da educação, durante os estágios, que mais refleti sobre a vida acadêmica, profissional e pessoal. E com o que hoje leio nas aulas de fundamentos sócio-históricos da educação, de Bourdieu, Weber, Marx, Adorno, entro em sérios conflitos, realmente me incomodo, repenso conceitos construídos durante toda a vida e isso não é nada confortável, ainda assim procuro por essas reações, porque, inclusive pelo que li deles, o indivíduo tem que desconfiar do bem-estar.
Logo, a leitura sempre me acompanhou, sinceramente, as vezes imagino que sempre li, nasci lendo. Foi por isso também que me vi, como professora, na obrigação de incentivar este hábito nos meus alunos.
Espero que não continue pensando assim, espero que amanhã quando eu ler este memorial, eu perceba quanto falta de detalhes nele, que acrescente outros parágrafos e que nunca me dê por satisfeita. Atualmente, ainda com a pouca maturidade que tenho, defendo a leitura como formadora de cada traço que temos em nós, desde a leitura genética, da leitura de mundo, inconsciente e ora ou outra coletiva à leitura mais consciente e crítica que possamos chegar. 
Afinal, é pela leitura e combinação de genes que nos encontramos aqui neste mundo, biologicamente, para lermos com os olhos da alma.





(Parte do memorial anexado em meu TCC, espero que tenham paciência de ler!)


6 comentários:

Vívian de Castro disse...

Eu amo esse texto, é lindíssimo. Traz a memória tds essas passagens das nossas vidas, td sempre juntas... E não sabia que tinha ensinado gramática a voce...

tujunio_go disse...

Gostei muito do texto, mas só uma pergunta: Como alguém consegue ser homofóbica no curso de letras?!
Com certeza você seria menos homofóbica ao terminar o curso!
Abraços!

Luciana disse...

Que coisa boa viver pra ter lido isto, Lílian.

Cláudio disse...

Prosa memorialista é sempre emociante ao envolvidos. A mim me faz ver meu passado de um ângulo nunca antes percebido. Texto de um lirismo gotejante, vivo. Prosa absolutamente poética, vibrante como a alma da autora.

Tarcísio disse...

Ah, agora, sim, ficou explicado. Rs. Passei uma madrugada lendo o seu blog e o da Vívian. Fiquei bastante emocionado (e comovido) lendo muitas das coisas que vocês escreveram, em particular quando uma se referia à outra. Fiquei muito admirado com a sua desenvoltura e fluência linguística. Sei, como ex-aluno, que a faculdade de Letras ajuda muita gente a desenvolver a competência tanto de leitura quanto de escrita, no entanto, já cansei de ver gente saindo formada de lá "semianalfabeta" com problemas elementares e sérios para desenvolver um discurso minimamente lógico e coerente. Creio, então, que você seja daquelas que já entrou "sabendo", já tendo "a manha" de como transformar pensamentos, reflexões, emoções, ..., em palavras. O seu "Memorial" é bastante elucidador nesse aspecto. A descrição da sua relação ambígua, talvez até paradoxal, com os livros e a forma como você iniciou o romance com as obras literárias é algo bem singular de se ler. Assim como o é a relação primeira de qualquer leitor que um dia viu o descortinar de um mundo pobre e sem cor em um mundo infinito, de infinitas possibilidades, que é o da literatura. É o deslumbrar de um míope, que sem se saber míope, um dia coloca óculos de grau, sem saber o que esperar, e vê que viveu tanto tempo sem enxergar pelo caminho as coisas pequeninas, as nuances, os contornos, e mais um sem-número de eventos, que agora não consegue deixar de perceber e não consegue deixar de sentir prazer diante deles. Acredito que todos que alcançam prazer na leitura são capazes de recordar o momento da "revelação", da epifania, que foi o instante em que se depararam com um livro mágico, divisor de águas, capaz de colocar-nos de vez na posição de leitor convicto e apaixonado. Sempre me recordarei do meu livro mágico: “Histórias Extraordinárias” do Edgar Allan Poe. Foi a primeira madrugada passada em claro, trocando o sono restaurador, pelo enredo, pelo personagem, pelo desfecho de uma trama. Muitas outras noites assim vieram, e, ainda, continuam vindo. Desejo que venham até o término dos meus dias. E é isso que desejo a meus queridos irmãos, membros da religião chamada literatura: que tenham suas vidas transformadas completamente e que o pesado fardo de arrastarmo-nos por essa existência estranha, nesse estranho mundo, se torne leve e dotado de propósito, desde que nunca se perca o sagrado hábito diário de atravessar ao menos algumas dezenas de páginas de alguma obra que, desde o início dos tempos, estava predestinada a aparecer diante dos seus olhos. É isso, minha cara Lílian, que eu desejo para a sua vida, seja lá que rumo ela for tomar doravante...

fernando disse...

que legal seu pai e escritor!não sabia axei que era so aquele texto.de seu aluno fernando.